No porto de Copenhaga, uma equipa de arqueologia subaquática analisou um naufrágio que torna palpável um episódio brutal da história europeia: a perda do navio de linha dinamarquês “Dannebroge” na batalha naval de 1801. Entre os achados há desde canhões até um fragmento de maxilar humano - e tudo isto surge precisamente quando um megaprojeto de engenharia costeira está a transformar a área de forma profunda.
Um navio de guerra na sopa turva do porto
Aqui não há imagens românticas de água cristalina e estruturas perfeitamente visíveis. As investigadoras e os investigadores do Museu dos Navios Vikings trabalham num fundo portuário escuro e lamacento, onde a visibilidade desce muitas vezes para apenas alguns centímetros e onde correntes e lodo tornam cada movimento lento e pesado.
O naufrágio do “Dannebroge” repousa a cerca de 15 metros de profundidade numa zona destinada a dar lugar ao gigantesco projeto de desenvolvimento urbano “Lynetteholm”. É exatamente por isso que a investigação se intensificou: antes de chegarem dragas, estacas-prancha e obras, as camadas arqueológicas têm de ficar registadas - caso contrário, perdem-se para sempre.
Chegar a uma identificação inequívoca não foi imediato. Para o conseguir, a equipa cruzou:
- cartas náuticas antigas e plantas do porto
- dados modernos de sonar e de levantamento topográfico
- medições da estrutura de madeira do casco
- análise de peças isoladas, como canhões e elementos de equipamento
- estudos dendrocronológicos das tábuas
Em particular, a datação pelos anéis de crescimento da madeira forneceu um indício forte: correspondia a um grande navio militar do período em torno de 1800. A forma, as dimensões e a organização do casco acabaram por confirmar que, no fundo do porto, se encontra o navio de linha dinamarquês “Dannebroge”.
“O naufrágio transforma um capítulo conhecido da História numa cena física - tangível até à última lasca de madeira.”
Porque este navio foi tão decisivo na batalha de 1801
2 de abril de 1801: ao largo de Copenhaga, navios britânicos sob o comando de Horatio Nelson atacam a defesa dinamarquesa. Oficialmente, o conflito envolve rotas comerciais e neutralidade; na prática, trata-se de afirmar poder sobre o mar numa época marcada pelas guerras napoleónicas.
O “Dannebroge” não era um mero apoio secundário. Integrava a linha defensiva diante da capital e representava uma peça-chave no bloqueio da entrada do porto - ou, pelo menos, na tentativa de atrasar o avanço britânico. Tinha cerca de 48 metros de comprimento e estava equipado com canhões pesados.
Por essa razão, tornou-se rapidamente alvo de fogo intenso. Os projéteis britânicos destruíram partes do casco e das estruturas superiores, e depois deflagrou um incêndio a bordo. Num navio de madeira do início do século XIX, o fogo era o pior cenário possível: o espaço concentrava barris de pólvora, cordame, alcatrão, tecidos e madeira, tudo empilhado e inflamável.
Relatos históricos descrevem o “Dannebroge” a derivar em chamas, até acabar por explodir. A batalha ficou nos livros - sobretudo por causa das manobras célebres de Nelson. O naufrágio, porém, conta a face menos heroica: a descida controlada de um navio cheio de tripulantes, onde o horror se desenrolou em conveses apertados.
O arqueólogo marítimo Morten Johansen resume o essencial: num confronto destes, quem estava a bordo vivia mais do que o estrondo dos canhões. Os impactos arrancavam lascas perigosas das pranchas, que atravessavam os compartimentos cheios de homens como estilhaços. Cada acerto fazia do próprio navio uma arma adicional contra a sua tripulação.
Objetos do dia a dia, canhões, ossos: o que o naufrágio revela
Quando se pensa num navio de guerra, a imagem comum são canhões polidos e alinhados. Debaixo de água, a realidade é outra. Sim, já foram documentadas duas peças de artilharia pesadas - mas o impacto mais forte vem das pequenas coisas.
As mergulhadoras e os mergulhadores estão a recuperar, entre outros materiais:
- sapatos e botas
- garrafas e outros recipientes
- fragmentos de louça de cerâmica
- restos de uniformes
- insígnias e botões metálicos
- vestígios de cestos entrançados e outros contentores
Este conjunto fala do quotidiano a bordo: refeições, gestão de provisões escassas, longas horas de vigia, falta de espaço e exaustão. Um sapato gasto pode indicar qualidade do material, condições do equipamento e até o efeito da humidade e do desgaste no interior do navio. Garrafas e cerâmica sugerem rotas de abastecimento e formas de conservar mantimentos.
Há, no entanto, um achado particularmente sensível: parte de um maxilar humano. É provável que pertença a um dos 19 marinheiros que, após a destruição do navio, são oficialmente dados como desaparecidos. Quando surgem restos humanos, a perceção do local muda de imediato.
“O naufrágio deixa, assim, de ser apenas um objeto de investigação e passa a ser um provável cemitério de guerra.”
Para a equipa arqueológica, isso implica uma responsabilidade dupla: registar com rigor científico e, ao mesmo tempo, atuar com respeito num lugar onde pessoas perderam a vida.
Quando o passado colide com o betão: Lynetteholm e as consequências
A descoberta acontece num momento delicado. Copenhaga quer criar, com “Lynetteholm”, um grande novo bairro assente em terrenos artificialmente conquistados ao porto. A área deverá aumentar a oferta habitacional e ajudar a proteger a costa contra futuras tempestades e contra a subida do nível do mar.
O problema é que, nessa mesma zona, permanecem vestígios de embarcações como o “Dannebroge”. Para a arqueologia, isto torna-se uma corrida contra o tempo: em poucos anos tem de se documentar o que antes se planeava para décadas. Depois, estacas-prancha, betão e vias de circulação cobrem locais onde hoje ainda repousam barcos e vidas do passado.
Somam-se ainda riscos de segurança. Nas imediações do naufrágio, os mergulhadores localizaram numerosas balas de canhão, testemunhos silenciosos do bombardeamento. A presença desta munição indica que toda a área pode continuar marcada por restos de guerra, exigindo planeamento cuidadoso para evitar acidentes.
O caso é exemplar da tensão com que cidades portuárias modernas lidam com o seu próprio património. De um lado, a pressão para criar habitação e adaptar-se ao clima; do outro, sob a superfície, existem arquivos únicos que registam séculos de navegação intensa.
Como a investigação subaquática torna a História concreta
O “Dannebroge” mostra bem o que a arqueologia subaquática consegue acrescentar. A História não se reconstrói apenas com diários de bordo, relatórios oficiais e mitos nacionais, mas também com vestígios materiais. Muitas vezes, são justamente os objetos mais banais que contradizem versões grandiosas herdadas dos vencedores.
Veja-se um exemplo: pinturas heroicas costumam retratar disciplina e ordem no convés. Em contraste, achados como objetos largados à pressa, louça partida e equipamento espalhado apontam para outra realidade - pânico, calor, fumo, visibilidade reduzida e gritos. Assim, os últimos minutos de um navio podem ser descritos de forma muito mais realista.
Para quem não é da área, a expressão “análise dendrocronológica” soa abstrata. Na prática, trata-se de um “código de barras” natural na madeira: cada anel anual reflete as condições meteorológicas de um ano. Ao comparar estes padrões com amostras de referência bem datadas, é possível determinar com boa precisão quando a árvore cresceu e quando a madeira foi trabalhada. Desta forma, os investigadores enquadram um naufrágio numa fase de construção e numa tradição de estaleiro específicas.
Também ganha peso a discussão sobre o tratamento de restos mortais. Em vários portos europeus, está a consolidar-se a prática de encarar cemitérios militares subaquáticos de forma semelhante a sepulturas de guerra em terra. Isso pode significar não levantar tudo, mas proteger no local e monitorizar a longo prazo.
No ensino escolar na Dinamarca, o naufrágio abre novas possibilidades: em vez de falar apenas da tática de Nelson ou das consequências diplomáticas, os docentes podem mostrar achados reais, explicar rotinas e descrever cheiros e sons da época. Assim, um ponto numa linha cronológica transforma-se no destino tangível de 300 homens que lutaram pela vida em compartimentos de madeira apertados.
E para quem planeia a cidade, o “Dannebroge” funciona como um aviso claro. Grandes projetos costeiros como o Lynetteholm podem destruir, em muito pouco tempo, arquivos formados ao longo de séculos. Quem quer construir com visão de futuro precisa de integrar a arqueologia desde o início - não como uma obrigação incómoda, mas como uma oportunidade de compreender melhor a história da própria cidade antes de a máquina avançar.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário