Lages ocupa um lugar estratégico no turismo de Santa Catarina. Situada a 920 metros de altitude, no planalto serrano, a cidade é muitas vezes descrita como a porta de entrada da Serra Catarinense, área que concentra alguns dos principais destinos de montanha do Sul do país. Detentora do maior território do estado, o município nasceu do movimento de tropeiros e bandeirantes, tendo sido fundado em 1677, e mantém uma ligação histórica ao ciclo das tropas que atravessavam o interior do Brasil.
No inverno, o frio torna-se um dos grandes chamarizes locais. É habitual os termómetros descerem para valores abaixo dos dois dígitos, enquanto a geada cobre zonas rurais e também áreas urbanas. Outro fenómeno típico é o sincelo, uma formação de gelo que ocorre quando gotículas de água congelam sobre superfícies como ramos, fios e lâminas de água. A neve aparece com menos regularidade e depende de condições meteorológicas específicas, mas não é um acontecimento raro.
A forma como o clima serrano se cruza com a vida no campo ajudou a definir o perfil do turismo na cidade. Foi em Lages que se consolidou o turismo rural brasileiro. Na década de 1980, propriedades históricas da Coxilha Rica começaram a receber visitantes interessados em viver de perto o quotidiano das fazendas e em conhecer a paisagem típica do planalto catarinense.
Em 1984, abriram os primeiros hotéis-fazenda do país. O projecto aproveitou estruturas existentes em propriedades centenárias e valorizou marcas históricas da região, como as taipas de pedra erguidas há mais de dois séculos para demarcar os antigos corredores por onde passavam as tropas.
Pioneirismo no turismo rural
O papel de liderança de Lages neste segmento foi reconhecido oficialmente com o título de Capital Nacional do Turismo Rural. A cidade foi ainda o berço da Associação Brasileira de Turismo Rural (Abraturr), que actualmente integra o Conselho Nacional de Turismo. O modelo desenvolvido no município acabou por ser replicado noutras partes do país e é recomendado pela Embratur.
Para além da experiência rural, Lages serve de base a quem pretende explorar outros municípios da Serra Catarinense. O Aeroporto Regional do Planalto Serrano, situado na vizinha Correia Pinto, é apontado como a principal porta de entrada de visitantes que chegam à região. O terminal recebe voos directos de São Paulo (Congonhas) três vezes por semana, às segundas, quartas e sextas-feiras.
A ligação é operada pela Gol Linhas Áreas com aviões Boeing 737, com capacidade para até 186 passageiros. Em alternativa, é possível desembarcar em Florianópolis ou Navegantes e continuar de carro ou de autocarro pela serra.
De acordo com Valdir Luiz Della Giustina, presidente do Conselho de Turismo da Serra Catarinense, o conjunto de atracções naturais e culturais coloca a região em evidência entre os destinos com potencial de crescimento no Sul do Brasil. Na sua avaliação, Santa Catarina reúne condições que favorecem a expansão do turismo, incluindo diversidade de paisagens, infra-estruturas e eventos culturais.
A Serra Catarinense inclui municípios como Lages, São Joaquim, Urubici e Bom Jardim da Serra. A área reúne montanhas, cascatas, trilhos e unidades de conservação ambiental, entre as quais o Parque Nacional de São Joaquim. Nos meses mais frios, a possibilidade de neve reforça a procura por destinos de serra.
Natureza, cultura e eventos
Entre os atractivos naturais de Lages destaca-se o Salto Caveiras, a cerca de 20 quilómetros do centro da cidade. Considerado um dos patrimónios naturais do município, o local tem sido alvo de iniciativas para ampliar o seu aproveitamento turístico.
Desde o ano passado, a Secretaria de Turismo e a Celesc disponibilizam um trilho com acesso guiado até à cascata. A actividade integra o portefólio da operadora receptiva Encantos do Sul Turismo, em parceria com o Serviço Social do Comércio (Sesc), ampliando as opções de turismo de natureza na região.
O percurso prevê o acompanhamento de guias especializados e insere-se num conjunto de acções orientadas para valorizar o potencial turístico do Salto Caveiras. Para além da caminhada até à cascata, a programação inclui actividades ligadas à cultura local e à gastronomia serrana.
Para lá das propostas de natureza, a região procura reforçar a sua identidade cultural como um diferencial turístico. Em Lages, festas tradicionais dinamizam o calendário anual e atraem visitantes de vários estados.
Entre os principais destaques estão a Festa Nacional do Pinhão (que este ano ocorre de 22 de maio a 7 de junho) e a Festa do Churrasco. Estes eventos ajudam a afirmar a cidade como um pólo de turismo de eventos, complementando a oferta associada ao turismo rural e às actividades ao ar livre.
A gastronomia é também parte da estratégia de promoção regional. Produtos como queijos, vinhos, cervejas artesanais e pratos ligados à tradição gaúcha integram a experiência oferecida aos visitantes. Em paralelo, a economia local - sustentada pela agropecuária e pela actividade industrial - contribui para o desenvolvimento do sector turístico.
Segundo Valdir Luiz Della Giustina, o avanço do turismo na Serra Catarinense depende da continuidade dos investimentos em infra-estruturas e na promoção do destino. Entre as prioridades mencionadas estão melhorias na acessibilidade, aumento da capacidade do aeroporto de Lages e a qualificação dos serviços prestados pela rede hoteleira e gastronómica.
Região aposta em expansão
O presidente do Conselho de Turismo da Serra Catarinense salienta ainda a importância de ampliar as acções de marketing dirigidas aos mercados nacional e internacional. Na sua perspectiva, campanhas de divulgação e o reforço da presença digital podem ajudar a aumentar a visibilidade da região.
Outras medidas consideradas relevantes incluem linhas de crédito para empreendedores, programas de formação profissional, certificações de qualidade e iniciativas de sensibilização da população para o peso económico do turismo.
Entre os destinos catarinenses apontados com potencial de crescimento estão a própria Serra Catarinense, orientada para o turismo de experiência e o clima de montanha; o Vale Europeu, com destaque para Pomerode e a sua herança cultural alemã; e o Meio-Oeste, que reúne atracções como a Região dos Lagos e as casas subterrâneas de São José do Cerrito, associadas à cultura indígena.
Jornalista viajou a convite do Conserra (Conselho de Turismo da Serra Catarinense)
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