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Terapias de conversão em Portugal: histórias de Pedro e Miguel e a tentativa de “curar” a homossexualidade

Jovem abre porta de madeira em entrada decorada com azulejos e crucifixo, segurando documentos.

Quando contou que era bissexual, Pedro ouviu de um padre que só tinha dois caminhos: manter-se na Igreja e “seguir o sacerdócio” ou tentar tornar-se heterossexual com a ajuda de “uma psicóloga católica”. Num país onde as terapias de conversão passaram a ser crime, continua a haver quem procure “curar” a homossexualidade.

Passadas três décadas e meia desde que a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou a homossexualidade da lista de doenças, a Lusa reuniu relatos como os de Pedro e de Miguel, ambos confrontados com convites para “tratar” a sua orientação sexual.

Pedro Lopes e as propostas do pároco

Pedro Lopes (nome fictício) decidiu abrir-se com o seu guia espiritual e dizer-lhe que era bissexual. A resposta do pároco - um padre franciscano - apanhou-o desprevenido: segundo ele, se quisesse viver com essa orientação sexual, deveria “seguir o sacerdócio”. A alternativa apresentada foi tentar ser heterossexual com o apoio de “uma psicóloga católica”, contou Pedro.

A conversa deixou-o a sentir-se “castrado”. Recusou a ideia e acabou por afastar-se da Igreja. E não foi um episódio isolado: pouco tempo antes, as chamadas “terapias de conversão” já lhe tinham sido apresentadas como possibilidade aceitável. Em 2022, numa festa de aniversário, ao falar de bissexualidade, alguns amigos chegaram a afirmar que “existia solução” para situações desse tipo.

Pedro nunca aceitou esse tipo de práticas, mas ficou convencido de que continuam a ser realizadas.

Miguel Salazar: terapias de conversão e rutura familiar

Miguel Salazar viveu uma experiência semelhante. Tinha 16 anos quando aceitou fazer terapias de conversão “com um psicólogo cristão”, numa tentativa de reduzir a tensão dentro de casa e trazer tranquilidade ao ambiente familiar. Quando decidiu interromper o processo, diz que os pais tornaram a sua “vida um inferno, até decidir sair de casa”. Hoje tem 26 anos. À Lusa, a mãe negou todas as acusações.

Pedro Lopes, por sua vez, descreveu realidades próximas: conhece amigos homossexuais que foram postos de lado pela família. “Não são convidados para as festas de Natal nem da Páscoa e, se tiverem uma relação, não podem levar essa pessoa a casa”.

Sem registo de casos

Na Ordem dos Psicólogos, não existem queixas nem denúncias relacionadas com estas práticas. Para Miguel Ricou, da Ordem, isso tem uma explicação: “A grande maioria das pessoas que possa fazer essas práticas não é psicólogo, psiquiatra, nem profissional de saúde mental, porque sabem que não vale a pena fazer uma intervenção que não vai ter resultados e que, pelo contrário, vai aumentar a sensação de estigma”.

O especialista referiu estimativas internacionais segundo as quais cerca de 5% das pessoas LGBTI+ terão sido sujeitas a estas práticas. Ainda assim, o primeiro estudo feito em Portugal indica números muito superiores. No relatório “Saúde Mental, Experiências de Terapia e Aspirações de Vida de Pessoas LGBT+”, coordenado por Pedro Alexandre Costa e publicado em 2023, 22% dos inquiridos disseram ter sido alvo de práticas de conversão em contexto religioso, médico ou psicoterapêutico.

Apesar de as práticas de conversão serem crime desde 2024, as autoridades não têm “registo de processos” findos em tribunal nesse ano, indicou à Lusa o Ministério da Justiça.

À Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) e à Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens (CNPDPCJ) também não chegaram participações.

A Casa Qui foi a única organização a receber um pedido de ajuda: no final de 2024, uma pessoa procurou apoio depois de afirmar ter sido submetida a “missas de conversão”, relatou à Lusa Rita Paulos, presidente da associação que apoia pessoas LGBTI+ em situação de risco.

Também o Observatório da Discriminação da ILGA, a Rede ex Aequo, a Opus Diversidade e a APAV não têm registo de casos recentes. Ainda assim, Joana Menezes, psicóloga da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, alertou que a falta de queixas não prova que as práticas não existam.

Rita Paulos concordou, defendendo que isto poderá continuar a acontecer “principalmente em contexto religioso (...) mesmo que não seja explicitamente como “terapia de conversão”.

Joana Menezes recordou igualmente situações de violência doméstica ou intrafamiliar desencadeadas pela rejeição da orientação sexual ou da identidade de género, bem como histórias de jovens expulsos de casa - ou que acabam por fugir.

Agravar o trauma

Numa igreja relativamente perto daquela que Pedro frequentava, um outro pároco - que pediu anonimato - diz ter ouvido histórias de pessoas que aceitaram submeter-se a práticas que descreveu como “quase tortura psicológica” para deixarem de ser homossexuais.

Esse padre contou ter conhecido dois homens que, já no século XXI, tentaram “a conversão para a heterossexualidade”. Mas, segundo ele, as técnicas “não deram resultado, graças a Deus”.

Um dos fiéis explicou-lhe que participava em sessões de grupo e em consultas individuais, num processo de transformação que não terminava no consultório.

Tinha uma espécie de caderneta onde anotava o que sentia ao longo do dia e ia acumulando ou perdendo pontos. “Quando iam na rua, por exemplo, apontavam se tinham sentido ou não atração por uma figura masculina”.

O pároco frisou que as duas histórias não decorreram em contexto de igreja: eram acompanhadas por “psicólogos ou pseudo-psicólogos, que tinham uma componente religiosa, mas não eram em reuniões de igreja”.

No fim, as práticas falharam e, segundo o padre, apenas aprofundaram o sofrimento. Quando foram convidadas a testemunhar - mesmo com garantia de anonimato - as pessoas recusaram, por entenderem que “falar no assunto pode levar a uma retraumatização”.

Duas outras vítimas chegaram a aceitar falar, mas desistiram pouco antes das entrevistas. Disseram que ainda não conseguiam tocar no tema e que preferiam manter-se em silêncio.

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