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ARA “Almirante Irízar” (Q-5): desafios e preparação para a Campanha Antártica de Verão com Héctor Gustavo Vera

Homem em casaco laranja analisa mapa e tablet perto de helicóptero em ambiente gelado com neve.
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No âmbito de uma nova navegação de treino, preparatória para a próxima Campanha Antártica de Verão, a Zona Militar falou a bordo do rompe-gelos ARA “Almirante Irízar” (Q-5) com o seu comandante, o Capitão de Mar e Guerra Héctor Gustavo Vera. Na conversa, o oficial descreveu os principais desafios que o navio enfrenta no processo de aprontamento, o calendário de preparação para os meses seguintes e a complexidade logística inerente a manter a presença argentina na Antártida.

A entrevista decorreu na recta final de um treino no mar que permitiu integrar o rompe-gelos com outros elementos do poder naval, incluindo meios da Infantaria de Marinha e das Forças Especiais. Neste contexto, a unidade realizou também escalas em Puerto Madryn e em Ingeniero White, onde recebeu um número expressivo de visitantes, no âmbito de actividades de aproximação à comunidade.

“Neste momento estamos concentrados na navegação de deslocação, a concluir uma fase de treino no mar que nos serviu para nos integrarmos e realizar uma etapa com os restantes componentes do poder naval: Frota de Mar, Aviação Naval, Infantaria de Marinha e Forças Especiais”, explicou Vera à Zona Militar. O comandante salientou ainda que as visitas em Puerto Madryn e em Ingeniero White foram “um sucesso”, dada a elevada adesão do público.

Um navio que opera um terço do ano e se prepara nos outros dois

Questionado sobre os desafios principais para o Irízar com vista à próxima campanha, Vera sublinhou que o navio segue um ciclo anual muito particular, no qual a manutenção e o treino são tão determinantes quanto a própria operação antártica.

“Imaginemos que estamos numa plataforma que, ao longo de todo o ano, passa um terço a operar. E ficamos com os outros dois terços para executar as manutenções e para fazer o treino da parte da guarnição que embarca sem experiência prévia a bordo”, referiu.

Nesse sentido, o comandante explicou que a unidade está a completar uma primeira fase de treino inicial para o pessoal recentemente integrado, antes de avançar para um período de manutenção mais exigente. Estes trabalhos incidirão sobretudo sobre os motores, os sistemas de controlo e os auxiliares, tendo em vista o posterior ensaio de máquinas, habitualmente realizado durante o mês de Outubro.

Este planeamento insere-se no cronograma geral que antecede cada Campanha Antártica de Verão, cuja janela operacional tende a decorrer entre meados de Novembro e meados de Março. Para o Irízar, é nesse intervalo que se concentra o esforço maior do ano: reabastecer bases, transportar e rodar guarnições, apoiar a actividade científica e assegurar o suporte logístico que sustenta a presença argentina no continente branco.

Para além das tarefas de manutenção, Vera frisou que o foco central do Irízar é o ambiente em que tem de operar. Ao contrário de outras navegações, a Antártida combina grandes distâncias, meteorologia adversa, isolamento e gelo presente de forma constante.

“Nós operamos na Antártida, que é um lugar muito hostil para navegar porque tem a pior meteorologia do mundo e, além disso, acrescenta o perigo de navegar entre gelos”, afirmou o comandante.

Ainda que o navio esteja concebido para trabalhar nestas condições, Vera destacou que a navegação antártica exige vigilância permanente. O estado do tempo pode mudar com rapidez e o gelo acrescenta riscos adicionais a qualquer unidade que actue na área.

Neste ponto, o comandante distinguiu dois tipos de gelo que condicionam a operação do rompe-gelos. Por um lado, o gelo marinho, resultante do congelamento da água do mar. Por outro, o gelo continental, de origem glaciar, cristalino e significativamente mais duro. Esta combinação obriga a planear cada rota com grande rigor, acompanhando simultaneamente a evolução meteorológica e a dinâmica do campo de gelo.

Uma campanha segmentada em três grandes etapas

A escala logística da Campanha Antártica impõe que o destacamento seja repartido por fases. Como explicou Vera, a Argentina dispõe de seis bases permanentes e de sete que abrem durante o verão, o que exige planeamento escalonado e uma gestão cuidadosa da capacidade de carga do navio.

“Como temos uma grande quantidade de bases, a logística necessária para as sustentar, sobretudo as que ficam activas ao longo do ano, é bastante volumosa. Razão pela qual o volume de porões de carga que temos a bordo não chega e é preciso segmentar a campanha em três grandes etapas”, detalhou.

A primeira etapa desenvolve-se sobretudo na área da Península Antártica e envolve bases como Marambio, Esperanza, Petrel e Carlini, entre as permanentes. Nesta fase inicial, o Irízar executa missões de abastecimento, transporte de pessoal e apoio logístico nos primeiros pontos do dispositivo.

A segunda etapa, segundo o comandante, é a mais extensa e difícil. Nela, o navio actua em Orcadas e depois segue para a Base Antártica Conjunta Belgrano II, a instalação argentina mais austral e uma das bases permanentes mais austrais do mundo.

“A segunda etapa é a mais longa e eu considero que é a mais complexa, que é quando vamos a Orcadas e depois temos de ir até à base mais a sul que o país tem, que é Belgrano II”, sustentou Vera.

A operação rumo a Belgrano II constitui um dos maiores desafios de toda a campanha. A base situa-se numa zona particularmente exigente do Mar de Weddell, onde o movimento do gelo condiciona fortemente a janela de acesso do rompe-gelos.

Vera foi inequívoco ao explicar a necessidade de cumprir esta missão no período certo: “Temos de alcançar o ponto mais a sul a que se pode chegar em navio. Devido ao movimento de gelos dentro do Mar de Weddell, é uma operação que temos de concretizar sim ou sim entre meados de Janeiro e meados de Fevereiro”.

Esta janela temporal ajuda a perceber por que razão a Campanha Antártica exige um planeamento apertado, tanto em prazos como em recursos. Na prática, cada etapa depende da anterior: o reabastecimento, a rotação de pessoal, as operações com helicópteros e o movimento de carga têm de ser coordenados em função das condições meteorológicas, da disponibilidade de gelo e das necessidades específicas de cada base.

A terceira etapa, por sua vez, incide sobre o lado oeste da Península Antártica. Aí, o Irízar actua na Base San Martín e depois prossegue com o encerramento das bases temporárias de verão, completando de forma progressiva o recuo do dispositivo activado durante a estação estival.

“Basicamente, isto é um esforço de 120 dias de operação”, resumiu o comandante.

Guarnição, Sea King e pessoal científico

Numa Campanha Antártica de Verão, o Irízar não transporta apenas carga. Leva também guarnições de entrada e de saída, militares de outros ramos das Forças Armadas, cientistas, técnicos, especialistas e o grupo aeronaval embarcado que opera com os helicópteros Sea King.

De acordo com Vera, a guarnição permanente do navio é composta por 120 homens e mulheres, aos quais se soma uma guarnição complementar para funções adicionais. A este efectivo junta-se o grupo aeronaval embarcado, indispensável para operar as duas aeronaves Sea King transportadas durante a campanha.

“Isso exige um esforço bastante importante para poder operar com as duas aeronaves Sea King que o navio leva”, assinalou.

Os helicópteros desempenham um papel decisivo na logística antártica, sobretudo quando o gelo, a distância ou as características da costa impedem uma ligação directa entre o navio e as bases. O seu emprego permite movimentar carga, pessoal e material em cenários em que a operação marítima, por si só, não é suficiente para completar o abastecimento.

A este componente acrescenta-se um conjunto diversificado de pessoas que têm de ser transportadas para as bases e de volta: guarnições de entrada, guarnições de saída, pessoal científico destinado às instalações antárcticas e especialistas que trabalham no próprio rompe-gelos, incluindo nos seus laboratórios.

“Temos uma média de tripulantes de cerca de 300 pessoas a bordo”, indicou Vera ao descrever a composição típica durante uma campanha antárctica.

Uma capacidade nacional construída ao longo de mais de 120 anos

No final da entrevista, o comandante do Irízar realçou a importância de a sociedade compreender o valor associado à experiência antárctica argentina. Nesse sentido, recordou que o país mantém uma presença permanente na Antártida há mais de 120 anos, com um percurso reconhecido internacionalmente.

“Em relação à política antárctica, é preciso destacar que o nosso país tem uma presença permanente na Antártida há mais de 120 anos. Isso é muito valioso e o conhecimento e a expertise que o nosso país tem relativamente à actividade antárctica são muito reconhecidos no mundo”, afirmou.

Vera acrescentou que essa experiência permitiu à Argentina transmitir conhecimentos a outros países que se foram juntando mais tarde à actividade antárctica. Para o comandante, este património operacional, logístico e humano integra as capacidades concretas do país na região.

“É bom que a sociedade tenha noção das reais capacidades que o país tem em matéria antárctica”, expressou.

Neste enquadramento, o comandante evocou o antecedente do resgate do navio alemão Magdalena Oldendorff, em 2002, como exemplo do tipo de capacidade que o Irízar pode oferecer perante incidentes em determinadas latitudes antárcticas.

“Se alguma vez houver um incidente como já aconteceu com o Magdalena Oldendorff, talvez seja o único navio preparado para ir fazer, em algumas latitudes antárcticas, o resgate”, sustentou.

Com esta combinação de experiência acumulada, capacidade logística, operação aeronaval e navegação polar, o ARA “Almirante Irízar” continua a ser um elemento central para sustentar a presença argentina na Antártida. O aprontamento anual, tal como descrito pelo seu comandante, não se limita aos meses de campanha: começa muito antes, com manutenção, treino, integração de novas guarnições e verificação de sistemas, para que o navio esteja pronto quando a janela antárctica o exigir.


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