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O ARC Guajira: um novo navio anfíbio em Curaçao
Com base apenas numa breve nota publicada em páginas pessoais de um oficial - sem confirmação formal e sem qualquer comunicado que esclarecesse a contratação, o procedimento concorrencial ou o método de compra -, está praticamente concluído, no estaleiro da Damen em Curaçao, um novo navio de desembarque anfíbio destinado à Armada da Colômbia. Trata-se de uma unidade do tipo Stan Lander 5612, que deverá tornar-se o maior navio anfíbio actualmente operado pelo país.
O navio irá chamar-se ARC Guajira. A sua existência e a localização puderam ser verificadas por este correspondente através dos sites radlinx.com e vesselfinder.com, onde é indicada, de forma explícita, a posição em que se encontra neste momento.
Características e dimensões do Stan Lander 5612
Como referido, trata-se de um navio da classe 5612, cujas características gerais podem ser ajustadas de acordo com o que o cliente solicitar, em linha com o sistema modular utilizado pelo fabricante. As dimensões indicadas são: 57,27 m de comprimento, 12 m de boca e um calado entre 2,95 m e 3 m, o que lhe permite operar em águas pouco profundas.
No que diz respeito ao desempenho, a embarcação está preparada para atingir uma velocidade máxima entre 10,5 e 11 nós, dispõe de autonomia até 3 000 milhas náuticas sem necessidade de reabastecimento e é operada por uma guarnição de 16 militares da marinha.
Configuração do convés, capacidade de carga e apoio logístico
A versão construída integra um convés aberto concebido para transportar até 42 contentores padrão ou viaturas pesadas. Conta ainda com uma rampa de proa que possibilita operações de desembarque directamente em praias ou em cais de carácter mais rudimentar, proporcionando uma capacidade de carga útil de até 740 toneladas.
O navio inclui também uma grua com capacidade de elevação até 25 toneladas, permitindo executar operações autónomas de carga e descarga. Adicionalmente, possui tanques para transporte de combustível (225 m³) e de água potável (200 m³), o que viabiliza o abastecimento a outras embarcações ou a comunidades.
Estaleiro construtor e utilização desta classe noutras marinhas
O estaleiro responsável é o Damen Shiprepair Curaçao, anteriormente conhecido como Curaçao Drydock Company, fundada em 1959 e adquirida em 2017. A infraestrutura tem capacidade para receber navios com até 280 m de comprimento e, entre outros serviços, disponibiliza manutenção, reparação, recondicionamento e conversão de embarcações, bem como construções offshore de várias dimensões.
Importa notar que esta classe já está ao serviço noutras marinhas. Entre os exemplos encontram-se o Presidente Manuel Amador Guerrero do Panamá, o HMBS Lawrence Major da Real Força de Defesa das Bahamas e as unidades 526, 527, 528 e 529 da Marinha Popular do Vietname. Foram igualmente construídos os AB Los Frailes, AB Los Testigos, AB Los Roques e AB Los Monjes para a Armada Bolivariana da Venezuela, embora estas unidades tenham porto de origem em Cuba.
Contratação por convénios e dúvidas de transparência
Algumas informações relevantes sobre esta nova aquisição apontam que, aparentemente, o negócio terá sido fechado através de um convénio entre a Armada e a Unidade de Gestão do Risco, esta última envolvida em grandes escândalos de corrupção na Colômbia. Um aspecto particular dos convénios entre entidades estatais no país é que, após assinados, conferem à entidade a possibilidade de avançar com contratação directa, sem necessidade de concurso ou licitação.
Também chama a atenção o facto de a Damen ter obtido o contrato da nova fragata colombiana, o de dois rebocadores - que poderiam ter sido fabricados pela Cotecmar - e o deste novo navio de desembarque, sem que, em nenhum destes processos, tenha sido possível verificar a existência de outros proponentes, alternativas de capacidade ou o sistema de selecção da empresa, sendo que todos foram, além disso, formalizados por via de convénios.
Ainda assim, para este repórter, persiste sempre a interrogação quanto à transparência das aquisições, em especial das efectuadas através de convénios, e quanto à forma como determinadas empresas conseguem contratos sem que os órgãos de controlo ou a população possam escrutinar as características e o processo de selecção do adjudicatário.
Relevância operacional para a Armada da Colômbia
Dito isto, este correspondente entende que se trata de uma das aquisições mais relevantes para a Armada da Colômbia, por introduzir novas capacidades, um tonelagem de desembarque sem precedentes e, pela primeira vez na sua história, a possibilidade de projectar numa costa uma força militar significativa. Alguns poderão argumentar que os navios construídos pela Cotecmar já asseguram este tipo de capacidades; porém, na prática, o seu tonelagem é de apenas 210 toneladas e permitem transportar, no máximo, 8 viaturas militares, incluindo Humvees.
É igualmente importante sublinhar que, no âmbito da actual administração, tem existido uma tendência para ocultar, em grande medida, a aquisição de navios militares, apresentando-os como embarcações de ajuda humanitária, apesar de a sua capacidade militar ser inequívoca. Isto aparenta ser, sobretudo, uma adaptação destinada a enquadrar a contratação no modelo assente em convénios.
Apesar do exposto, este navio representa um marco que não deve ser ignorado, atendendo às novas valências que acrescenta em termos de meios de desembarque e de tonelagem. Além disso, ao operar em conjunto com unidades como o ARC Golfo de Tribugá, ARC Golfo de Urabá, ARC Golfo de Morrosquillo, ARC Bahía Málaga, ARC Bahía Colombia e ARC Bahía Solano, torna possível, pela primeira vez, uma verdadeira projecção do mar para terra - uma capacidade típica das principais marinhas do mundo.
Fotografias utilizadas apenas a título ilustrativo.
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