Nos últimos tempos, tenho dado uma atenção muito particular aos processos de sucessão em empresas familiares, sobretudo na passagem do fundador para a segunda geração.
Quando essa transição falha, a destruição de valor na empresa tende a ser enorme.
A reflexão e o acompanhamento deste tema deixaram-me mais atento - e com uma postura analítica mais exigente - perante sucessões noutros tipos de instituições, tanto privadas como públicas.
Processos de sucessão em empresas familiares: risco real de destruição de valor
Uma das realidades que mais me tem despertado curiosidade é a figura do “sucessor deslumbrado”: alguém que, de um momento para o outro, ganha um protagonismo próprio dentro da organização e sente necessidade de provar, imediatamente, que é diferente do seu antecessor.
Em vez de medir o que estava a ser feito e assegurar continuidade ao trabalho em curso, muda por completo o ritmo, redefine prioridades e altera a estratégia da organização.
E já vi este padrão resultar em destruição de valor significativa.
O “sucessor deslumbrado” e as mudanças abruptas na estratégia
Existem grupos empresariais familiares em que os sucessores, influenciados por amigos ignorantes, decidem avançar para áreas de negócio novas, sem experiência, acabando por destruir valor empresarial acumulado ao longo do tempo.
Também em grupos empresariais privados, há administradores que impulsionam alterações profundas de estratégia e, como consequência, desencadeiam conflitos entre grupos de acionistas - com impacto direto na criação de valor.
Administração central e local: a sucessão que não aprende
No setor público, o fenómeno assume contornos igualmente nocivos. Há autarcas que, após eleições, em vez de se concentrarem na continuidade das obras iniciadas pelos seus antecessores, passam a maior parte do tempo a contestar tudo o que foi feito, prejudicando os munícipes que os elegeram.
A minha perplexidade é ainda maior quando isto acontece na Administração central e local e, além disso, o sucessor pertence ao mesmo partido do antecessor.
Tenho-me perguntado, repetidamente, de onde vem este comportamento - tão profundamente irracional.
As razões objetivas por detrás deste deslumbramento continuam, para mim, por explicar.
E isto apesar de existirem inúmeros casos que mostram que este deslumbramento, regra geral, termina mal, com os protagonistas a saírem pela porta pequena.
Mais estranho - e ainda mais difícil de compreender - é quando um sucessor deslumbrado sucede a um antecessor deslumbrado e, mesmo assim, nada aprende com a experiência anterior, limitando-se a repetir os mesmos erros.
Se estes fenómenos não fossem tão trágicos para o país, contribuindo para o nosso empobrecimento, talvez nos pudéssemos ficar por um sorriso.
Mas, infelizmente, só nos resta chorar.
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