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Livro Branco alerta para o declínio dos polinizadores selvagens na Europa

Mulher a estudar flores e abelhas numa florada com hotel de insetos ao fundo durante o dia.

Os polinizadores selvagens estão a diminuir em toda a Europa, e os impactos podem ir muito além do mel e das flores silvestres.

Um novo Livro Branco, elaborado por oito grandes consórcios de investigação financiados pela UE, alerta que a segurança alimentar, as cadeias económicas de abastecimento e a resiliência de ecossistemas inteiros estão em risco.

Segundo o relatório, o principal obstáculo a uma solução é a governação fragmentada e em silos da União Europeia.

O documento não se limita a identificar o problema: termina com um roteiro de 15 recomendações concretas para travar e inverter o declínio dos polinizadores no continente.

Relatório pede gestão responsável dos polinizadores

O relatório foi desenvolvido por uma equipa interdisciplinar de 135 investigadores, com especializações que abrangem ecologia de ecossistemas, ciência dos polinizadores, economia ecológica, ciências sociais, história ambiental, psicologia comportamental, ciência política e direito do ambiente.

O autor principal, Jeroen van der Sluijs, coordenou o trabalho no âmbito dos oito projectos financiados pela UE.

O Livro Branco apela a que a UE e os seus Estados-Membros assumam a gestão responsável dos polinizadores como uma prioridade explícita e mensurável.

De acordo com o documento, essa prioridade deve ser integrada nas políticas de agricultura, ambiente, químicos, investigação e inovação, comércio, finanças, ordenamento do território, legislação e educação.

Muito mais do que abelhas e mel

O argumento económico em defesa dos polinizadores é frequentemente apresentado a partir da produção alimentar: as abelhas polinizam culturas, as culturas alimentam as pessoas, logo as abelhas são essenciais. Essa lógica é correcta, mas fica aquém do quadro completo.

As plantas com flor que dependem de polinizadores sustentam um leque muito mais amplo de sectores económicos europeus.

Entre eles estão plantas medicinais, suplementos alimentares, culturas energéticas de biomassa, biomateriais, têxteis, forragens, cosmética, decoração, arte, cultura e turismo.

A polinização está, assim, incorporada em cadeias de valor que a maioria das pessoas raramente associa a este serviço ecológico.

A natureza é tratada como um recurso

O relatório interpreta a crise dos polinizadores como sinal de um problema mais profundo: uma relação disfuncional entre os seres humanos e a natureza.

Essa relação assenta na ideia de que a natureza existe para ser usada como recurso, em vez de ser entendida como um sistema no qual as pessoas estão inseridas e do qual dependem.

Esse enquadramento traduz-se em estruturas institucionais que favorecem ganhos individuais de curto prazo, em detrimento da estabilidade ecológica de longo prazo de que tudo o resto depende.

As práticas agrícolas insustentáveis surgem, neste contexto, como a consequência mais visível.

O problema da governação

O relatório é explícito quanto às falhas da política europeia. As responsabilidades sobre polinizadores estão dispersas por áreas como agricultura, ambiente, químicos, comércio e outros domínios.

Cada um destes sectores opera com objectivos próprios e, em grande medida, sem coordenação.

O resultado é a incoerência: medidas adoptadas numa área acabam por contrariar o que outra tenta alcançar, e não existe uma responsabilização clara pelo resultado global.

Não se trata de uma mera crítica burocrática. Restaurar polinizadores de forma eficaz implica acção integrada e simultânea em todos esses sectores.

Uma arquitectura de governação fragmentada torna essa coordenação - e, mais ainda, a fiscalização - quase impraticável.

Por isso, o relatório defende que a gestão responsável dos polinizadores deve passar a ser uma prioridade explícita, com metas mensuráveis, incorporada em todas as áreas políticas relevantes, e não tratada como uma preocupação ambiental de nicho.

A lacuna de conhecimento

Um dos argumentos mais marcantes do relatório centra-se no conhecimento - mais precisamente, na falta dele entre quem, através de decisões quotidianas, molda os habitats dos polinizadores.

O problema nem sempre é desinteresse; muitas vezes, as pessoas simplesmente não percebem como determinadas práticas se repercutem, em cadeia, nos resultados para os polinizadores.

“Muitos agricultores semeiam faixas de flores silvestres junto aos campos, mas quase ninguém sabe que algumas mariposas são polinizadores mais eficazes do que as abelhas-do-mel”, disse van der Sluijs.

“Estas pequenas criaturas da noite, cobertas de veludo e de poeira ao luar, precisam de plantas hospedeiras para as suas larvas, e não apenas de flores. Plantas hospedeiras para sirfídeos, escaravelhos e mariposas polinizadores faltam na maioria das misturas de sementes usadas nas faixas floridas.”

O relatório sublinha que agricultores, técnicos de ordenamento, gestores de território e outras pessoas cujas decisões afectam o habitat dos polinizadores, frequentemente, não têm literacia ecológica suficiente para compreender o que essas escolhas significam para os insectos que pretendem proteger.

Um roteiro para a protecção dos polinizadores

O Livro Branco defende que a literacia ecológica deve ser obrigatória na formação profissional de todos os que trabalham em sectores com impacto nos polinizadores e nos seus habitats.

O raciocínio é pragmático: não é possível gerir adequadamente aquilo que não se compreende.

O documento fecha com 15 recomendações fundamentadas em evidência, apresentadas como acções urgentes que, quando implementadas na íntegra, podem reverter o declínio dos polinizadores na Europa.

As propostas abrangem reforma da governação, política agrícola, regulação de químicos, restauro de habitats e educação.

A lógica central é que medidas incrementais, aplicadas dentro dos actuais silos, não serão suficientes.

O conflito entre objectivos de produção de curto prazo e o interesse público de manter os serviços de polinização tem de ser resolvido ao nível estrutural - e não apenas mitigado com ajustes marginais.

Os polinizadores precisam de alimento e habitat

Nos últimos anos, a Europa assumiu compromissos em matéria de biodiversidade e sustentabilidade agrícola. Ainda assim, continua a existir uma diferença relevante entre essas metas e o que acontece, na prática, no terreno para os polinizadores.

Uma parte dessa diferença é política. Outra parte resulta da fragmentação de governação identificada pelo relatório e do problema de conhecimento.

Muitas pessoas querem fazer o que é correcto, mas não dispõem da informação necessária para o fazer de forma eficaz.

Os polinizadores selvagens não respeitam fronteiras administrativas nem limites de políticas públicas. Precisam de alimento, de habitat e de uma paisagem que funcione como ecossistema - e não como um sistema de produção gerido, ao qual se acrescentam faixas de flores silvestres apenas para “ficar bem”.

A Europa tem investigação, instituições e compromissos assumidos para agir. A questão, que o Livro Branco coloca de forma incisiva, é se existe a arquitectura de governação e a vontade política para o concretizar.

O relatório pode ser consultado aqui.

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