Saltar para o conteúdo

Marcas chinesas na Europa: BYD, MG e a corrida às fábricas

Engenheiro com capacete e colete numa fábrica de automóveis com braços robóticos a montar carros.

Em cada vez mais países europeus, surgem novas fábricas de automóveis com logótipos de marcas chinesas à entrada. Os governos celebram estas entradas, falam de tecnologia do futuro e de reforço do tecido industrial. Mas, quando se olha com atenção para dentro das naves, aparece um retrato menos entusiasmante: muitas unidades funcionam mais como grandes plataformas de montagem - e uma parte significativa dos postos acaba por ser ocupada por especialistas destacados a partir da China.

Marcas chinesas conquistam as estradas da Europa - e agora também as fábricas

Há poucos anos, ver carros chineses na Europa era raro. Hoje, estão estacionados em centros urbanos, bairros periféricos e parques de estacionamento de pendulares, sobretudo no segmento dos elétricos. BYD, MG, Chery ou Nio deixaram de ser curiosidades e passaram a disputar o mercado com Volkswagen, Stellantis e outras grandes referências.

Nesta nova etapa, a expansão já não se faz apenas à custa de importações. Cada vez mais grupos chineses deslocam parte da produção para a Europa: compram fábricas desativadas, abrem novas localizações, levantam unidades de baterias e centros logísticos. No papel, isto parece ir ao encontro do que vários governos europeus procuram: investimento, receita fiscal e emprego.

"As promessas soam a uma renascença industrial - a realidade aproxima-se mais de ilhas de montagem deslocalizadas, com benefícios limitados para a economia local."

Porque é que o “Fabricado na Europa” é tão atrativo para a China

O principal motor desta estratégia está nas regras do comércio. Automóveis completos vindos da China enfrentam direitos aduaneiros na UE e podem estar sujeitos a taxas adicionais. Já produzir veículos ou baterias dentro da Europa permite contornar uma parte relevante desses custos.

  • Produzir localmente reduz ou contorna direitos de importação.
  • O rótulo “fabricado na Europa” aumenta a confiança de muitos consumidores.
  • Os governos atraem projetos com apoios, vantagens fiscais e investimento em infraestruturas.
  • As cadeias de abastecimento encurtam, algo particularmente valioso nos veículos elétricos.

Para muitos compradores, a ideia de “fabrico europeu” funciona como sinal de maior qualidade e de normas mais exigentes. Houve precedentes: fabricantes japoneses e coreanos instalaram-se no Reino Unido, em França ou na Alemanha nos anos 1980 e 1990 e, com o tempo, criaram redes completas de fornecedores.

É precisamente aqui que se nota a diferença face a essa vaga anterior. Enquanto Toyota, Nissan ou Hyundai acabaram por trabalhar de forma estreita com fornecedores locais e por criar milhares de empregos nacionais, muitos projetos chineses seguem uma abordagem bastante mais fechada.

Montagem em vez de produção real: fábricas europeias como um conjunto de peças

Um exemplo conhecido é a antiga fábrica da Nissan perto de Barcelona. Ali, a Chery passou a montar modelos das marcas Omoda e Jaecoo. Falar de produção automóvel no sentido clássico é difícil: os veículos chegam, em grande medida, já pré-configurados por via marítima.

Este método é conhecido como “Semi Knock Down” (SKD). Na prática, grandes subconjuntos vêm da China e, na Europa, faz-se sobretudo a montagem final. Em vez de existirem prensas, construção de carroçarias ou fabrico local de componentes, estas instalações operam como oficinas de grande escala - montar rodas, colocar o volante, encher fluidos.

"Para o fornecedor local, que poderia entregar bancos, tabliers ou airbags, sobra muito pouco espaço no modelo de negócio."

O resultado é um estado intermédio peculiar: a unidade fica em território europeu e, do ponto de vista político, pode vender-se como um êxito de atração de investimento. No plano industrial, porém, a criação de valor continua em larga medida na China. Assim, a oportunidade de reativar ou ampliar uma rede regional de fornecedores perde-se.

Quando não são só as peças: também os trabalhadores vêm da China

O segundo ponto crítico afeta diretamente o mercado de trabalho. Não são apenas componentes que atravessam o continente - também o pessoal. Um caso é a fábrica de baterias planeada pela CATL, gigante chinês do setor, nas proximidades de Saragoça, destinada a fornecer, entre outros, a Stellantis.

Para a construção e o arranque da unidade, a CATL vai trazer cerca de 2.000 trabalhadores da China para Espanha. É natural que, no início de um projeto de alta tecnologia, sejam necessários especialistas experientes. Ainda assim, a escala indica até que ponto o conhecimento essencial se pretende manter no país de origem.

Aspeto Apresentação oficial Impacto real no terreno
Empregos Criação de novos postos em regiões desfavorecidas Muitas funções preenchidas por especialistas destacados
Transferência tecnológica A alta tecnologia chega à Europa O conhecimento-chave fica frequentemente em equipas chinesas
Fornecedores Oportunidade para a indústria local A maior parte dos componentes continua a vir da China

Bruxelas acompanha esta evolução com atenção. Há responsáveis da Comissão Europeia que já criticam o facto de se “importarem” cadeias de produção quase completas - incluindo trabalhadores. Para regiões que esperam uma mudança de rumo, pode restar apenas uma fração daquilo que as apresentações mais vistosas prometem.

Estará a UE perante uma reação dura?

Ao mesmo tempo que novas unidades se anunciam, os fabricantes europeus enfrentam forte pressão: dificuldades de vendas nos elétricos, transições dispendiosas e programas de redução de custos. Nesta fase de fragilidade, a expansão chinesa avança de forma agressiva, com modelos mais baratos e marcas ainda recentes.

A discussão política já vai longa: como evitar que a Europa se transforme numa simples zona de venda e montagem, enquanto o centro tecnológico fica na Ásia? Uma hipótese passa por inverter o jogo e adotar mecanismos semelhantes aos que a própria China utilizou durante anos.

Entre as medidas em debate, incluem-se:

  • participação obrigatória de parceiros europeus em novas fábricas, à semelhança dos antigos joint ventures na China,
  • quotas de percentagens mínimas de peças realmente produzidas na Europa,
  • regras claras sobre a proporção de trabalhadores contratados localmente,
  • controlos mais apertados a subsídios públicos para limitar distorções concorrenciais.

Exigências deste tipo poderiam transformar um mero polo de montagem numa fábrica com criação de valor regional. Em contrapartida, a UE arrisca que alguns grupos cancelem projetos ou procurem outras geografias, se as condições forem vistas como demasiado restritivas.

BYD, MG e companhia: a segunda vaga já está a chegar

Apesar da crítica crescente, os fabricantes chineses continuam a acelerar. A BYD, um dos maiores produtores de veículos elétricos do mundo, já anunciou uma primeira fábrica na Europa e procura simultaneamente um local para uma segunda unidade, incluindo hipóteses na Catalunha.

A MG, hoje sob controlo chinês, também avalia localizações para se afirmar de forma duradoura como produtora europeia. A instalação de fábricas é integrada, com habilidade, na competição entre países: os Estados disputam os projetos com subsídios, promessas de infraestruturas e benefícios fiscais para garantirem estas apostas de prestígio.

"A pergunta central não é tanto se a China produz na Europa, mas em que condições e com que benefício para a economia nacional."

O que significa realmente “criação de valor local”

A expressão “criação de valor local” aparece constantemente, mas muitas vezes fica vaga. No essencial, trata-se de medir quanta atividade económica se fixa, de facto, na região - e não apenas no papel.

Isso inclui, por exemplo:

  • empregos locais, tanto qualificados como operacionais,
  • encomendas para fornecedores e prestadores de serviços da região,
  • receitas fiscais que não desapareçam por via de deslocações artificiais de lucros,
  • vagas de formação e parcerias com instituições de ensino superior,
  • centros de investigação e desenvolvimento nas proximidades.

Quando uma fábrica é desenhada para manter o máximo possível da cadeia na China, este efeito cai de forma acentuada. Em vez de um motor regional, nasce um posto avançado logístico - muitas vezes num território que perdeu, recentemente, empregos industriais.

Como a Europa ainda pode beneficiar

Apesar das críticas, as novas fábricas podem ser uma oportunidade - desde que política e empresas definam regras inteligentes. Se tecnologia chinesa, em unidades europeias, trabalhar lado a lado com engenheiros, técnicos e fornecedores locais, pode surgir uma transferência real. Para isso, são decisivos: formação aberta, equipas mistas e regras claras que envolvam atores locais.

Algumas alavancas práticas seriam programas de formação obrigatórios, parcerias com escolas profissionais e universidades, ou requisitos de transparência nas cadeias de abastecimento. Assim, reduz-se o risco de a Europa ficar apenas com o aperto do último parafuso, enquanto a criação de valor, o know-how e o poder de decisão se concentram noutro lugar.

Para trabalhadores, sindicatos e autarquias, a implicação é simples: olhar com mais rigor antes de celebrar uma nova fábrica como vitória. Nem toda a unidade com fachada reluzente garante empregos robustos e o regresso de uma indústria forte. O que conta é quem beneficia, no fim, da produção - as regiões europeias ou, sobretudo, as sedes corporativas na China.


Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário