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Ilovik-Paržine 1: pólen no casco de um navio romano revela viagens após 2.200 anos na Croácia

Mulher a trabalhar num artefacto arqueológico em ambiente de laboratório ou museu com mapas e tablet.

Durante 2.200 anos, uma película escura aderida ao casco de um navio romano fez muito mais do que vedar a madeira contra a água. No interior desse revestimento ficaram retidos grãos microscópicos de pólen que, hoje, permitem aos cientistas reconstituir onde a embarcação foi construída, que paisagens atravessou e quantas vezes foi reparada antes de se afundar ao largo da Croácia.

Como o naufrágio foi encontrado?

Baptizado de Ilovik-Paržine 1, este navio mercante foi localizado em 2016 na baía de Paržine, junto à ilha croata de Ilovik. Terá naufragado por volta de 170 a.C., durante a República Romana, e encontra-se a cerca de quatro metros de profundidade, a apenas 30 metros da linha de costa.

Trabalhos de escavação conduzidos por arqueólogos croatas e franceses trouxeram à luz secções do casco em bom estado de conservação, pedras de lastro, troncos e fragmentos de ânforas. Estes recipientes serviam para transportar bens como vinho e azeite, o que sugere que o navio integrava as intensas redes comerciais que ligavam portos do Mediterrâneo e do Adriático.

Por que o casco preservou tantas informações?

Para reduzir infiltrações e limitar danos provocados por organismos marinhos, os construtores antigos aplicavam na madeira substâncias adesivas. No caso do Ilovik-Paržine 1, as análises químicas apontaram sobretudo para um material obtido pelo aquecimento de resina ou madeira de coníferas, muito provavelmente pinheiros.

Uma das amostras analisadas incluía também cera de abelha misturada com o breu. Esta combinação ajudava a tornar o revestimento mais maleável e mais simples de espalhar. Textos atribuídos ao naturalista romano Plínio, o Velho, referem uma preparação semelhante, conhecida como zopissa, usada na protecção e manutenção de embarcações antigas.

Como o pólen revelou as viagens do navio?

Quando o revestimento ainda estava quente e pegajoso, pequenas partículas do ambiente ficaram coladas à sua superfície. Para separar diferentes aplicações - quase indistinguíveis se consideradas apenas pela composição química - os investigadores cruzaram análises moleculares, estudos de pólen e métodos estatísticos.

Entre os vestígios ambientais detectados contavam-se:

  • Pólen de oliveiras e aveleiras típico de paisagens mediterrânicas;
  • Indícios de pinheiros e azinheiras característicos de zonas florestais;
  • Vestígios de amieiros e freixos associados a regiões húmidas;
  • Partículas de faias e abetos provenientes de áreas de maior altitude;
  • Combinações vegetais relacionadas com diferentes pontos do Adriático.

Cada conjunto funciona como uma assinatura da vegetação existente junto do local onde o material foi preparado ou aplicado. Ao compararem estas assinaturas, os cientistas conseguem propor as regiões por onde a embarcação passou e separar o revestimento original das camadas adicionadas ao longo do uso.

Veja o vídeo partilhado pelo canal do YouTube Grands Sites archéologiques, com relatos sobre o Ilovik-Paržine 1 filmado no fundo do mar.

O navio passou por vários reparos

O estudo publicado na revista Frontiers in Materials reconheceu entre quatro e cinco lotes distintos de revestimento no casco. A forma como as camadas se distribuem sugere intervenções em momentos diferentes, sobretudo na proa, constituindo uma rara prova material de que navios mercantes antigos eram efectivamente mantidos durante viagens longas.

Os resultados indicam que uma parte significativa do revestimento foi produzida ou aplicada nas proximidades de Brundisium, a actual Brindisi, no sul de Itália. Investigação anterior sobre o lastro já apontava esse importante porto como possível local de construção do navio. Outras camadas, por sua vez, parecem ter sido acrescentadas noutros pontos da costa adriática.

Um revestimento virou diário de bordo

A investigação não identifica cada paragem com a exactidão de um mapa moderno, mas converte uma substância antes tida como secundária numa fonte histórica. No casco ficam registadas técnicas de construção, recursos naturais disponíveis, circulação de saberes e práticas de cuidado quotidiano que raramente surgem em documentos escritos da Antiguidade.

O Ilovik-Paržine 1 demonstra que até uma simples camada de breu consegue guardar a memória de uma embarcação. Proteger naufrágios e apostar em novas análises é urgente, porque partículas invisíveis podem revelar rotas, ofícios e decisões humanas que permaneceram submersos por mais de dois milénios.


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