Vários comboios da RATP estão vulneráveis ao bug do ano 2038. O Tribunal Administrativo de Paris condenou a Alstom a corrigir esta falha.
Depois do bug do ano 2000, surge a dúvida: será que devemos temer um bug do ano 2038? Trata-se de um problema semelhante, ligado à forma como algumas plataformas informáticas representam datas, e que poderá provocar falhas graves se não for corrigido. E não é um risco limitado a computadores: em França, também pode afetar comboios.
Exposição da RATP ao bug do ano 2038 nos comboios MI09
De acordo com o Le Parisien, que cita uma informação do L’Informé, a vulnerabilidade da RATP ao bug do ano 2038 terá sido detetada por acaso em 2017. Na altura, trabalhadores tentaram introduzir uma data posterior a 2037 no software de um comboio MI09 - e o sistema não lidou bem com esse cenário.
O caso não seria único. Segundo o artigo, pelo menos 38 comboios estariam abrangidos. O problema atingiria ainda mais de um terço da rede da RATP, incluindo o RER A e 8 linhas de metro.
Decisão do Tribunal Administrativo de Paris e prazos para a Alstom
A RATP terá pedido à Alstom, já em 2018, que analisasse e tratasse a situação. Contudo, sem obter resultados concretos, avançou para tribunal em 2019. Segundo o L’Informé, o Tribunal Administrativo de Paris condenou a Alstom a corrigir o bug a 13 de novembro.
A decisão estabelece um prazo de cinco anos para a empresa resolver o problema, após a realização de um levantamento do estado da situação que deverá ficar concluído em 12 meses. Citada pelo Le Parisien, a Alstom afirma ter "tomado conhecimento da decisão do Tribunal Administrativo de Paris" e indica que decidiu interpor recurso.
Porque é que este bug existe?
Em termos globais, o bug do ano 2038 pode ter consequências significativas caso não seja corrigido nos sistemas afetados. A origem do problema está no facto de, em alguns softwares, o tempo ser representado no código como o número de segundos decorridos desde 1 de janeiro de 1970 - o início do chamado “tempo UNIX”. Por exemplo, o instante exato em que estas linhas são escritas corresponde ao tempo UNIX 1765452748, ou seja, 1765452748 segundos desde 1 de janeiro de 1970.
O problema é que, em softwares programados em 32 bits, esse tempo UNIX atinge o seu valor máximo a 19 de janeiro de 2038, às 3 h 14 min 7 s, tempo universal, o que corresponde ao tempo UNIX 2 147 483 647.
Segundo o Le Parisien, a Alstom terá defendido em tribunal que esta data-limite já era mencionada em publicações desde 1999 e que terá sido a própria RATP a recomendar o uso de software open source, normalmente desenvolvido em 32 bits. Ainda assim, a decisão do tribunal indicaria que "a RATP, que é apenas responsável pelos transportes em Paris e na Île-de-France, não dispõe de competências técnicas idênticas às da Alstom Transport, que é um construtor e conceção de materiais circulantes."
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