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Freedom Ship: a cidade flutuante de $16 billion para 80,000 pessoas

Futurista navio-hotel suspenso sobre a água com áreas verdes, visto por três pessoas numa varanda à beira-mar.

A maioria das cidades não sai do lugar. Esta, porém, foi pensada para nunca parar. Um grupo de promotores na Florida quer erguer um navio tão grande que funcione como uma cidade completa - com casas, escolas, um hospital e até um estádio - e que passe a vida a dar a volta ao planeta.

A bordo, até 80,000 pessoas viveriam, trabalhariam e estudariam.

O orçamento apontado ronda os $16 billion, ou aproximadamente £12 billion. Não existe nada sequer parecido já construído.

Se o financiamento se concretizar, a embarcação tornar-se-ia a maior estrutura marítima alguma vez criada - e não atracaria em lado nenhum. Nem uma única vez.

Maior do que tudo o que flutua

Pelos planos, o navio teria pouco mais de uma milha de comprimento de proa a popa - perto de 5,900 pés (cerca de 1,8 km). Teria 800 pés de largura (aproximadamente 244 m), elevar-se-ia 30 decks acima da água e pesaria cerca de 2.3 million gross tons.

Para visualizar a escala: se deitasse a Estátua da Liberdade de lado, precisaria de cerca de 17 estátuas alinhadas, ponta com ponta, para cobrir a mesma distância. Percorrer tudo a passo normal demoraria por volta de 20 minutos.

Hoje, os maiores navios de passageiros em operação são o Icon of the Seas e o Star of the Seas, da Royal Caribbean. Esta embarcação teria capacidade para transportar mais de oito vezes as pessoas de qualquer um deles.

O projecto Freedom Ship

A iniciativa chama-se Freedom Ship e pertence à Freedom Cruise Line International, uma empresa sediada na Florida. A ideia remonta ao fim dos anos 1990, quando o engenheiro Norman Nixon a desenhou pela primeira vez.

Nixon morreu em 2012 e, durante anos, o plano ficou praticamente em suspenso. Agora, o director executivo da empresa, Roger Gooch, voltou a colocá-lo em cima da mesa, apoiado por uma equipa de liderança de 12 pessoas que inclui o arquitecto Kevin Schopfer, da Schopfer Associates, e o gestor de projecto Sridev Mookerjea.

Segundo Gooch, o interesse de potenciais compradores tem sido elevado. “We could almost justify building three ships.”

Quem viveria a bordo

A previsão de população divide-se em três grupos. Cerca de 50,000 seriam residentes permanentes e fariam do navio a sua morada.

Além disso, estima-se a rotação de 10,000 hóspedes de hotel e visitantes de um dia, e uma tripulação de 20,000 pessoas asseguraria a operação diária.

As unidades residenciais e comerciais seriam vendidas ou arrendadas, mas a empresa ainda não divulgou valores.

A vida permanente no mar já existe, embora em escala muito menor. O navio residencial The World e o cruzeiro de longo curso Villa Vie Odyssey também têm residentes a tempo inteiro - mas apenas algumas centenas em cada caso.

Aqui, a proposta pega nessa lógica e amplifica-a em cerca de cem vezes.

Uma “cidade flutuante” em alto-mar

O que está nos desenhos parece um plano de serviços municipais. As escolas iriam do ensino primário até ao ensino superior, permitindo que uma criança completasse todo o percurso escolar sem precisar de pisar terra.

Os cuidados de saúde ficariam a cargo de um hospital de investigação. Para lazer, a lista inclui um estádio desportivo com 15,000 lugares, dois museus, uma sala de concertos para uma orquestra sinfónica, um centro de convenções, um parque aquático, uma discoteca, uma praça de restauração em dois pisos e um aquário no qual mergulhadores poderiam, de facto, nadar.

Num complexo com esta dimensão, a mobilidade vira um problema próprio. Os projectistas apontam para uma linha interna de eléctrico, cerca de 15 milhas de passadiços (aproximadamente 24 km) e três acres de parques ajardinados distribuídos pelos decks (cerca de 1,2 hectares).

Para receber quem chega do continente, estão previstos dois hotéis em torre e oito heliportos.

Como se moveria o Freedom Ship

O navio navegaria a cerca de sete nós - mais devagar do que um passeio descontraído de bicicleta - e completaria uma volta inteira ao globo a cada dois anos.

Permaneceria próximo de grandes portos durante uma semana ou mais de cada vez, com ferries e aeronaves a fazerem o transporte de pessoas e abastecimentos.

A própria estrutura ficaria ao largo, em águas internacionais, porque não existe porto no mundo capaz de a receber.

A energia, ao que tudo indica, viria de uma central nuclear, e a manutenção seria toda feita no mar. Sem doca seca. Nunca.

A questão do dinheiro

Gooch afirma que já foi identificado um local principal de construção na Indonésia, onde o casco seria produzido por secções e montado na água. A obra demoraria três a quatro anos, e os residentes poderiam começar a instalar-se sensivelmente a meio do processo.

Antes disso, porém, alguém tem de garantir o financiamento. “We feel very confident that we can put this together, but capitalization is key,” disse Gooch.

Esse obstáculo já afundou o projecto no passado. Um comunicado da empresa, em 2008, reconhecia que era difícil obter financiamento fiável, e uma reactivação em 2013 perdeu força pelo mesmo motivo.

Porque é que o Freedom Ship ainda não foi construído

Há anos que investigadores tentam perceber porque é que cidades flutuantes raramente passam dos renderings.

Um estudo de 2012, publicado na revista Antipode e liderado pelo geógrafo Philip Steinberg, enquadrou propostas deste tipo numa longa tradição de projectos utópicos de colónias oceânicas - comunidades pensadas para circular fora do alcance das leis e dos impostos de qualquer país.

Até o nome Freedom Ship reflecte essa proposta original: uma sociedade móvel, livre das regras de uma nação específica.

O mesmo padrão surge ao longo de décadas em ideias semelhantes, de seasteads a megaiates de luxo. Os custos disparam para milhares de milhões, os investidores hesitam e os reguladores levantam questões para as quais ninguém apresenta respostas simples.

Grandes ideias flutuam com facilidade. Grandes empréstimos, nem por isso.

Por enquanto, a “cidade” existe apenas em imagens geradas por computador e num discurso comercial confiante. A equipa insiste que a procura é real e que a engenharia é resolúvel.

O oceano está pronto. O financiamento, não.

O estudo completo foi publicado na revista Antipode.

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