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Trenitalia acelera a ofensiva em França com a Certares para desafiar a SNCF

Homem de fato com mala roda e telemóvel numa plataforma de estação com comboio moderno vermelho e branco.

Os TGV vermelhos italianos estão a subir de patamar. A Trenitalia acaba de fechar uma aliança com um influente fundo de investimento norte-americano para intensificar a sua ofensiva no mercado francês. No alvo está a SNCF e o seu quase monopólio nas ligações de alta velocidade.

A notícia foi formalizada esta segunda-feira, 29 de dezembro. O grupo público italiano Ferrovie dello Stato, acionista de referência da Trenitalia, assinou um acordo estratégico com a Certares, um fundo dos EUA especializado em turismo, com mais de 7 mil milhões de dólares em ativos. A meta declarada é “acelerar o crescimento” da Trenitalia France e “consolidar a sua presença” em França e, por extensão, no mercado europeu.

Certares e Trenitalia: financiamento e plano de investimento

Na prática, a Certares coloca 300 milhões de euros numa empresa conjunta recém-criada e passa a deter uma participação no capital da Trenitalia France. Em troca, a operadora italiana compromete-se com um programa de investimento de grande dimensão: mil milhões de euros em França e no Reino Unido. Um movimento com potencial para abalar a SNCF.

A parceria com a Certares não se resume a dinheiro. O fundo controla várias das principais agências de viagens a operar em França - Havas Voyages e Selectour - e inclui ainda CWT, Egencia e Ovation no segmento de viagens de negócios. Isto abre à Trenitalia canais de distribuição privilegiados, dos quais a SNCF fica, na prática, afastada. Para o operador histórico, é mais um sinal de pressão, numa altura em que um concorrente cada vez mais ofensivo lhe vai retirando quota.

Quatro anos depois de entrar nas linhas francesas, a Trenitalia exibe um crescimento muito rápido. Em 2025, a empresa transportou 1,8 milhão de passageiros - o dobro do ano anterior - e registou 90 milhões de euros de volume de negócios, face a 40 milhões em 2024. No acumulado, 4,7 milhões de pessoas já viajaram nos seus Frecciarossa desde dezembro de 2021.

Paris–Londres na mira

Este investimento deverá servir para reforçar a presença da companhia italiana nas rotas mais procuradas. A Trenitalia quer aumentar a frota para, pelo menos, 19 composições, quando hoje tem 9 já homologadas para circular na rede francesa. Está também previsto um novo centro de manutenção perto de Paris, com um investimento estimado em cerca de 60 milhões de euros. Na ligação Paris–Lyon, a empresa passou recentemente de 9 para 14 idas e voltas por dia, garantindo agora mais de um terço da oferta ferroviária neste eixo considerado estratégico.

O maior golpe está reservado para 2029: a empresa quer disputar à Eurostar a ligação Paris–Londres. A rota Paris–Bruxelas também está em avaliação. Se avançar, esta ofensiva pode voltar a baralhar o equilíbrio do transporte ferroviário na Europa.

Frecciarossa: proposta premium para viagens de negócios

Apesar de a Trenitalia admitir que ainda não atingiu a rentabilidade, a aposta é clara: conquistar o público empresarial através da qualidade do serviço. A bordo, há sala de reuniões reservável, cadeiras em pele com orientação ajustável, Wi‑Fi gratuito e ilimitado e restauração servida no lugar. Os Frecciarossa posicionam-se, assim, no segmento alto - uma estratégia que parece estar a dar frutos, já que a Trenitalia foi recentemente eleita a melhor companhia ferroviária europeia pela ONG Transportes e Ambiente.

Perante este avanço, a SNCF terá trabalho pela frente. Mesmo com uma taxa de ocupação entre 80% e 90% (impulsionada, em particular, pelos TGV low-cost Ouigo), contra apenas 65% da Trenitalia no eixo Paris–Lyon–Marselha, a empresa francesa enfrenta críticas recorrentes. Atrasos cada vez mais frequentes, greves repetidas e sucessivos aumentos de tarifas acabaram por desgastar os passageiros, que foram procurando alternativas (avião ou automóvel). Um indicador disso é a quebra de 30% nas vendas de bilhetes para as festas de fim de ano, registada este ano. Talvez a Trenitalia consiga, afinal, fazer-nos preferir o comboio.

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