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O paradoxo da água no Golfo: Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos entre dessalinização e importações

Mulher de lenço na cabeça a servir bebida numa garrafa térmica num terraço com frutas e garrafas de água.

Na autoestrada entre o Dubai e Abu Dhabi, a luz do deserto bate no para-brisas com tanta força que parece haver um segundo sol a apontar-lhe de frente. Cá fora, não se vê quase nada além de dunas bege e tremuras de calor. Cá dentro, a mão do condutor vai, vezes sem conta, à zona do porta-copos, os dedos a fechar-se à volta de uma garrafa de plástico húmida, cheia de água importada dos Alpes.

Ele ri-se quando lhe chama a atenção para o rótulo. “Sabe melhor do que a da torneira”, diz, encolhendo os ombros. “Esta viajou mais do que eu alguma vez viajei.”

E, no entanto, ali mesmo - para lá da miragem - algumas das maiores centrais de dessalinização do mundo funcionam sem parar, dia e noite, a transformar água do mar em água potável. Ainda assim, nas prateleiras dos supermercados, alinham-se marcas estrangeiras, e chegam navios carregados de um líquido de que, tecnicamente, o Golfo não precisaria.

Há qualquer coisa aqui que não bate certo.

Nações desérticas “afogadas” em dessalinização… e ainda assim a comprar lá fora

A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos gostam de apresentar as suas centrais de dessalinização como prodígios da engenharia contemporânea. Ao longo da costa do Golfo, surgem complexos industriais gigantes, com tubagens e depósitos por todo o lado, a sugar água do mar e a devolver milhões de litros de água potável, hora após hora. No papel, estes países estão entre os que mais produzem água dessalinizada por habitante em todo o planeta.

Mas entre numa superfície comercial em Riade ou num hipermercado no Dubai e encontra um cenário diferente: prateleiras a brilhar com água engarrafada vinda de França, Itália, Turquia e até Eslovénia, empilhada acima da altura de uma pessoa.

Em 2023, só os EAU importaram água engarrafada no valor de centenas de milhões de dólares, grande parte vendida como “de gama alta” ou de “nascente natural”. A Arábia Saudita, com uma população muito maior, gasta todos os anos milhares de milhões a garantir água doce de uma forma ou de outra: em garrafas, em grandes volumes, ou disfarçada em importações alimentares.

Há algo quase surreal em ver, no porto de Jebel Ali, trabalhadores a descarregar paletes de garrafas de vidro com montanhas europeias nevadas no rótulo, enquanto, alguns quilómetros mais adiante na mesma costa, uma central de dessalinização queima gás para empurrar água do mar através de membranas. Para cada slogan sobre “origens imaculadas”, há um oleoduto de água a zumbir discretamente sob o calor.

À primeira vista, parece ilógico: se é possível “tirar” água do mar, porquê pagar para a trazer de fora?

A resposta está numa mistura pouco elegante de sabor, estatuto, custos e gestão de risco. A água dessalinizada exige muita energia, está diretamente ligada ao preço do petróleo e do gás, e muitas vezes é encaminhada para cidades e indústrias antes de alguma vez chegar ao formato de garrafa. Já a água engarrafada importada ocupa outro espaço: marca, confiança e uma sensação - nem sempre real - de pureza.

Há ainda um fator estratégico. Os governos do Golfo sabem que as centrais de dessalinização são vulneráveis a falhas de energia, ciberataques ou conflitos. Ter várias fontes de abastecimento, incluindo externas, funciona como uma apólice de seguro - e nenhum líder num deserto quer prescindir dela.

Como os Estados do Golfo “importam” água sem dizer que importam água

Se olhar com mais atenção, percebe que os carregamentos físicos de água são apenas uma parte do quadro. A Arábia Saudita e os EAU também importam aquilo a que muitos investigadores chamam “água virtual” - a água escondida que é usada noutros países para cultivar alimentos e criar animais, e que depois entra no Golfo sob a forma de comida.

Um quilo de carne de vaca pode representar mais de 15,000 litros de água gastos numa pastagem distante. Um saco de arroz pode trazer consigo a sombra de milhares de litros, vindos de um rio na Índia ou de um campo alimentado por monções na Tailândia. Quando as cidades do Golfo reabastecem as prateleiras, estão, na prática, a comprar rios, chuvas e aquíferos de outras nações.

A Arábia Saudita aprendeu isto da forma mais dura. Nas décadas de 1980 e 1990, o reino tentou produzir o seu próprio trigo no deserto. Projetos de irrigação em grande escala bombeavam “água fóssil” de aquíferos subterrâneos antiquíssimos, que não voltariam a recarregar numa vida humana. Durante algum tempo, resultou: em imagens de satélite, viam-se círculos verdes de campos de trigo - como marcas desenhadas na areia.

Depois, os poços começaram a perder força. Já na década de 2010, Riade foi abandonando a política sem grande alarido e regressou aos mercados globais. Hoje, o reino compra no estrangeiro a maior parte dos cereais, importando, na prática, a chuva que já não se atreve a extrair das suas profundezas.

Por isso, quando se diz que a Arábia Saudita e os EAU importam milhares de milhões em água todos os anos, muitas vezes estão a falar-se de várias camadas ao mesmo tempo. Há o negócio visível da água engarrafada, com brilho de luxo em átrios de hotéis e salas de espera de aeroportos. Depois há água em grandes volumes transportada em navios-cisterna, água destinada a setores específicos, e a enorme torrente de água “embebida” nos alimentos importados.

Por maior que seja, a dessalinização não consegue substituir tudo isto de forma simples ou barata. Os megaprojetos do Golfo mantêm as cidades de pé e as torneiras a correr, mas não apagam a aritmética básica de viver num lugar onde a chuva é rara e a população cresce rapidamente. A região não está apenas a comprar água; está a comprar tempo.

O que isto significa no dia a dia: hábitos, riscos e pequenas escolhas que se somam

Para quem vive no Dubai, em Abu Dhabi, Jidá ou Riade, o sistema quase não se vê. Abre-se a torneira e a água aparece. Pede-se uma garrafa num café e chega uma marca estrangeira à mesa como se fosse a coisa mais normal do mundo. Todos já passámos por isso: aquele instante em que escolhemos a garrafa “mais requintada” só porque o rótulo parece mais limpo e europeu.

Só que, por trás desse gesto, existe uma rota de transporte, uma unidade de produção e uma central de dessalinização a queimar combustível para manter a cidade a funcionar. Hábitos minúsculos do quotidiano alimentam um equilíbrio frágil entre produção interna e redes de segurança externas.

Uma mudança discreta que já se nota tanto na Arábia Saudita como nos EAU é o esforço para aumentar a confiança na água tratada local. Em edifícios mais recentes, existem sistemas de filtração avançados, e alguns restaurantes de gama alta servem com orgulho água da torneira filtrada em jarros, em vez de garrafas importadas. Campanhas públicas vão pressionando para se gastar menos, reparar fugas e encurtar duches.

Sejamos sinceros: quase ninguém cumpre isto todos os dias, sem falhar. Ainda assim, cada litro não desperdiçado por um residente é um litro que não precisa de passar por uma central de dessalinização intensiva em energia - nem de ser enviado do estrangeiro como “chuva de outra pessoa”. Multiplique-se isso por milhões de pessoas e os pequenos gestos deixam de ser apenas simbólicos para começarem a parecer uma estratégia.

Ao nível oficial, decisores no Golfo falam hoje com mais frontalidade sobre a armadilha energia–água em que vivem. Como me disse, ao café, um especialista saudita em recursos hídricos em Riade:

“Construímos esta máquina incrível que transforma petróleo e gás em água e ar fresco. A pergunta é durante quanto tempo a conseguimos alimentar antes de a fatura - ambiental, financeira, política - ficar demasiado alta.”

Para aliviar a pressão, tanto a Arábia Saudita como os EAU estão a tentar:

  • Reduzir o uso de água na agricultura interna e deslocar parte da produção alimentar para o exterior
  • Construir centrais de dessalinização alimentadas por energia solar para cortar emissões e custos com combustível
  • Normalizar e modernizar as redes de abastecimento para diminuir perdas por fugas
  • Incentivar indústrias a reciclar e reutilizar água em vez de a descarregar
  • Promover marcas locais de água engarrafada que dependam da dessalinização e não de nascentes longínquas

Nada disto parece particularmente dramático quando se observa de um átrio de hotel ou de um corredor de centro comercial. Mas, numa folha de cálculo de um ministério, cada melhoria pequena é mais uma linha de risco futuro que desaparece.

Viver com o paradoxo de reinos desérticos “ricos em água”

Há uma dissonância estranha em ver fontes coreografadas diante de centros comerciais de luxo num país que sobrevive de chuva fabricada. À superfície, o Golfo pode parecer rico em água: relvados verdes, esplanadas com nebulização, centros comerciais arrefecidos, piscinas brilhantes em todos os cartazes imobiliários.

Debaixo dessa imagem, existe uma consciência constante - sobretudo entre planeadores e engenheiros - de que a margem é pequena. Se a eletricidade falha durante algumas horas, as centrais de dessalinização param. Se uma crise nas cadeias de abastecimento acontece, os carregamentos de água engarrafada atrasam-se. Se uma onda de calor faz disparar a procura, o sistema geme um pouco mais alto.

E isto não é apenas uma história do Golfo. À medida que as alterações climáticas secam costas do Mediterrâneo, zonas dos Estados Unidos e partes da Ásia, mais países olham para a dessalinização e para a importação de água como o seu próprio plano B. O que hoje parece extremo em Riade ou no Dubai pode tornar-se normal em Barcelona ou Los Angeles amanhã.

A pergunta, por isso, não é só “Como arranjamos mais água?”, mas também “Como vivemos com o que temos sem empurrar o problema para os rios de outra pessoa?” A Arábia Saudita e os EAU já estão a testar respostas - algumas arrojadas, outras arriscadas, outras simplesmente sensatas de forma discreta.

Para quem lê de longe, isto pode soar a um problema distante, reservado a Estados ricos em petróleo. No entanto, a água engarrafada na sua mão, a fruta fora de época no frigorífico, a carne no prato: tudo isso pode fazer parte do mesmo comércio invisível de água doce.

O paradoxo do Golfo - megaprojetos na costa, importações no porto, aspersores sob o sol - é apenas uma versão mais ruidosa de uma questão que todos os países acabarão por enfrentar: como equilibrar conforto, estatuto, segurança e sobrevivência quando o ingrediente mais básico da vida tem de ser engenhado, transportado ou “emprestado” de outro lugar?

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A dessalinização tem limites A Arábia Saudita e os EAU operam enormes centrais de dessalinização, mas continuam a depender de fontes externas de água Ajuda a perceber porque a tecnologia, por si só, não “resolve” a escassez de água
Muitas importações de água são invisíveis A “água virtual” chega incorporada nos alimentos e noutros bens Muda a forma como pensa as escolhas no supermercado e o comércio global
Os hábitos do dia a dia contam num sistema frágil Poupança local, confiança na água tratada e mudanças de política alteram a procura Mostra onde o comportamento individual e as decisões públicas realmente se cruzam

Perguntas frequentes:

  • Pergunta 1: Porque é que a Arábia Saudita e os EAU importam água se têm centrais de dessalinização? A dessalinização cobre necessidades domésticas e urbanas, mas exige muita energia, é cara e é vulnerável a interrupções. As importações - tanto de água engarrafada como de água incorporada nos alimentos - distribuem o risco, respondem a preferências de sabor e de marca e reduzem a pressão sobre recursos internos.
  • Pergunta 2: Estes países correm o risco sério de ficar sem água? Não vão ficar sem água de um dia para o outro, mas vivem muito perto do limite. A segurança depende de energia estável, de centrais de dessalinização a funcionar e de rotas comerciais abertas para alimentos e água engarrafada.
  • Pergunta 3: A água dessalinizada é segura para beber da torneira no Golfo? Oficialmente, sim. A água da torneira é tratada e monitorizada, sobretudo nas grandes cidades. Ainda assim, muitas pessoas preferem água engarrafada por causa do sabor, de infraestruturas antigas em algumas zonas ou por simples hábito.
  • Pergunta 4: Importar água engarrafada prejudica o ambiente? Acrescenta emissões do transporte e resíduos de embalagens, por cima do impacto ambiental da dessalinização. É por isso que ambos os governos e algumas empresas estão a apostar em melhores sistemas de água da torneira, recargas e engarrafamento local.
  • Pergunta 5: Que lições podem outros países tirar desta situação? Que depender de soluções hídricas que consomem muita energia, sem alterar a procura, é arriscado. Diversificar fontes, proteger a água doce natural e ser honesto quanto às compensações é essencial antes de a escassez se tornar crise.

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