O navio neerlandês Batavia afundou ao largo da Austrália Ocidental em 1629, transportando centenas de blocos de arenito talhado. Cada peça tinha sido trabalhada na Europa para compor uma entrada monumental - um pórtico - na sede fortificada da Companhia Neerlandesa das Índias Orientais, no local que hoje é Jacarta.
Com 184 pés (56 m), o Batavia era um navio-almirante na sua viagem inaugural. Levava 341 pessoas a bordo quando embateu no Morning Reef, nas ilhas Houtman Abrolhos.
O naufrágio foi localizado por mergulhadores em 1963, e o Museu da Austrália Ocidental recuperou a carga de pedra e tijolo. O navio tornou-se um dos mais infames da história australiana, sobretudo pelo motim e pelos homicídios entre os sobreviventes.
Durante quase quatro séculos, os blocos pareceram corresponder a um único tipo de arenito, como se viessem todos da mesma pedreira. Contudo, uma equipa liderada pela Universidade Curtin concluiu que a origem era dupla.
As pedras do Batavia levantavam um enigma
Os registos antigos de expedição raramente indicam de que local vinha cada pedra. Além disso, séculos de imersão em água salgada alteram os blocos e tornam menos nítidas as diferenças entre eles.
“Historical records are incomplete, and after nearly 400 years underwater, these stones can look very similar, making them difficult to identify,” said Dr. Anthony Clarke, the lead researcher from Curtin University.
No interior de cada bloco existem minúsculos grãos minerais formados muito antes do próprio arenito. Esses grãos, conhecidos como zircão, resistem ao calor, à pressão e à água do mar.
O urânio presente em cada grão transforma-se em chumbo a um ritmo constante, o que permite datá-lo. Arenitos de regiões distintas exibem distribuições próprias de idades dos grãos - uma espécie de impressão digital.
O zircão revelou a origem das pedras do Batavia
As duas pedreiras produziam um arenito claro e fino, valorizado para trabalhos de escultura. Colocados lado a lado, os blocos exibem a mesma cor, textura e granulação.
Um laser vaporizou um ponto microscópico de cada grão e um equipamento mediu o urânio e o chumbo. Em seguida, a equipa comparou os blocos com amostras recentes das pedreiras alemãs de origem, disponibilizadas pelo Federal Institute for Geosciences and Natural Resources (BGR).
A aparência e a química básica não tinham sido suficientes para distinguir as pedras. Foram os grãos minerais no interior que permitiram separá-las.
A água do mar vai, lentamente, degradando o cimento mais macio que mantém o arenito unido. O zircão é o mineral mais resistente da rocha, pelo que permanece quando o resto se desagrega.
Duas pedreiras abasteceram um único pórtico
Os investigadores analisaram dois blocos do pórtico recuperados do naufrágio, identificados como BAT1145 e BAT1166A. Num dos blocos dataram mais de 150 grãos; no outro, 125.
Os dois blocos não coincidiam entre si. Um deles correspondia a arenito de uma pedreira perto de Obernkirchen, na Alemanha.
O outro coincidia com pedra de Bentheim, a cerca de 140 km de distância. Assim, duas peças do mesmo pórtico provinham de dois distritos de extração diferentes.
“We found these stones were sourced from at least two different quarry areas, then brought together into a single shipment before being sent halfway around the world in a highly organized supply chain more than 400 years ago,” said Clarke.
A cadeia de abastecimento atravessou a Europa
Bentheim e Obernkirchen pertencem a sistemas fluviais diferentes. A pedra de cada local teria seguido o seu próprio percurso até convergir num único porto.
Isto sugere uma cadeia de fornecimento planeada, e não uma recolha ao acaso da fonte mais próxima. O ponto de encontro mais provável teria sido Amesterdão, o principal entreposto e estaleiro naval da companhia.
A pedra de Bentheim era enviada através dos Países Baixos e da Bélgica desde a época medieval. Ambos os arenitos eram materiais de referência na Renascença do Weser, o estilo ornamentado que marcou grandes edifícios alemães e neerlandeses nos séculos XVI e XVII.
O resultado indica que a companhia geria o aprovisionamento para a construção como uma operação regional. Pedreiras, barcaças fluviais e navios oceânicos funcionavam como um único sistema.
Mais naufrágios aguardam testes
As conclusões incluem duas ressalvas importantes. Não existe nenhum documento sobrevivente que identifique explicitamente Amesterdão como o local onde estes blocos foram reunidos; por isso, os investigadores apresentam essa ideia como uma interpretação plausível, e não como um facto comprovado por documentação.
O estudo avaliou apenas dois entre as centenas de blocos de pedra recuperados do naufrágio, o que significa que uma amostra maior pode reforçar o padrão - ou torná-lo mais complexo.
“Nearly 400 years after Batavia sank, the famous ship is still revealing new stories,” said Dr. Corioli Souter, Head of Maritime Heritage at the Western Australian Museum.
A equipa tenciona agora analisar mais pedras do Batavia, bem como materiais de outros naufrágios. Ao compará-los com um conjunto mais amplo de pedreiras europeias, espera mapear com maior detalhe as rotas comerciais históricas.
A mesma técnica poderá também revelar a proveniência da pedra transportada por outros navios afundados, mesmo após séculos no fundo do mar.
Crédito da imagem: WA Museum
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