Todos os anos, milhões de pessoas deslocam-se até à Meca para cumprir o Hajj, uma das viagens mais marcantes no Islão.
Ao longo de vários dias, os peregrinos percorrem grandes distâncias a pé, rezam ao ar livre e deslocam-se continuamente entre locais sagrados.
Nos últimos tempos, porém, esta experiência tem-se tornado mais perigosa: o aumento das temperaturas está a tornar o esforço físico mais exigente e a colocar o corpo humano sob maior stress.
Uma viagem sagrada confronta-se com calor extremo
O Hajj é uma obrigação religiosa para os muçulmanos que têm condições para o realizar. Em cada ano, cerca de dois milhões de pessoas reúnem-se na Meca para participar.
Grande parte dos rituais decorre em espaços abertos. Durante vários dias, os peregrinos caminham, permanecem de pé em oração e ficam em áreas sem cobertura.
A região já é naturalmente muito quente, sobretudo no verão.
Em junho de 2024, cerca de 1,300 pessoas morreram durante o Hajj. A causa foi o calor extremo.
As temperaturas estavam muito elevadas e o ar apresentava também humidade, o que dificultou a capacidade do organismo de arrefecer. Muitos peregrinos passaram longas horas no exterior, com pouca proteção contra o sol.
Como o calor afeta o corpo
Cientistas analisaram o que ocorreu durante a peregrinação de 2024. Entre os aspetos avaliados esteve o chamado limite de sobrevivência - o ponto a partir do qual o corpo já não consegue arrefecer, mesmo suando.
“Os nossos resultados mostram que os limites de sobrevivência foram ultrapassados durante várias horas em cada dia da peregrinação, mesmo para o grupo de adultos mais jovens (18-40)”, escreveu Atta Ullah para a Assembleia Geral da EGU 2026.
Isto indica que até pessoas jovens e saudáveis estiveram em risco. Houve, ainda, um dia particularmente grave.
“A nossa análise mostra que, em 17 de junho de 2024, o efeito combinado do calor e da humidade ultrapassou o limiar de sobrevivência até para adultos jovens e saudáveis durante aproximadamente quatro horas consecutivas”, assinalou Atta Ullah.
“Durante este período, o corpo humano não consegue manter uma temperatura interna segura apenas através da transpiração, tornando a exposição ao ar livre sem sombra uma ameaça à vida.”
Durante quatro horas, estar no exterior sob aquele calor podia representar risco de vida.
O calor vai continuar a aumentar
O Hajj não ocorre sempre na mesma data do calendário civil. Por seguir um calendário lunar, vai acontecendo mais cedo a cada ano.
Neste momento, esse desfasamento está a afastá-lo dos meses mais quentes, o que proporciona algum alívio no curto prazo.
Por volta de 2050, o Hajj voltará a coincidir com o pico do verão. Nessa altura, é provável que as temperaturas globais sejam mais elevadas.
Isto significa que, no futuro, os peregrinos poderão enfrentar calor ainda mais severo do que em 2024. Para perceber o que poderá acontecer, os cientistas recorreram a modelos climáticos.
“Os resultados indicam que os limites de sobrevivência serão ultrapassados com maior frequência e mais rapidamente no futuro, salientando uma necessidade urgente de medidas de adaptação e, de forma crucial, de esforços de mitigação para reduzir os riscos relacionados com as alterações climáticas para os peregrinos”, observou Ullah.
Condições de calor perigosas deverão ocorrer mais vezes e prolongar-se por mais tempo.
Mais pessoas, mais risco
Mesmo aumentos pequenos na temperatura média global podem traduzir-se num crescimento acentuado dos riscos para a saúde.
Com 1,5 graus de aquecimento, o risco de insolação durante o Hajj pode tornar-se cinco vezes superior. Com 2 graus, pode ser dez vezes superior.
A Arábia Saudita planeia permitir a participação de mais pessoas no Hajj, o que facilita que mais muçulmanos cumpram este dever religioso.
No entanto, mais gente exposta a calor extremo também significa maior risco total.
As autoridades introduziram estações de arrefecimento, zonas com sombra e melhores serviços médicos. Algumas partes da peregrinação passaram, entretanto, a realizar-se em espaços interiores.
Estas medidas ajudam a diminuir o perigo, mas não o conseguem eliminar por completo.
O futuro da peregrinação do Hajj
O Hajj não pode ser deslocado ou alterado com facilidade. Os rituais têm de acontecer em locais específicos.
“Embora as estratégias de adaptação do Governo da Arábia Saudita possam reduzir alguns riscos, a essência e a prática tradicional da peregrinação poderão ainda ser comprometidas em condições de calor extremo”, referiram Ullah e colegas.
“Por isso, a mitigação continua a ser essencial para limitar o aquecimento global e salvaguardar o futuro da Peregrinação.”
Isto mostra que as soluções locais têm limites. A resposta de fundo passa por travar o aquecimento global, o que depende da redução das emissões a nível mundial.
Temperaturas mais baixas no futuro poderiam tornar o Hajj mais seguro.
O calor extremo é uma ameaça grave
Muitos peregrinos vêm de países que contribuíram menos para as alterações climáticas, mas que enfrentam riscos mais elevados. Entre eles estão países da Ásia e de África.
Este cenário levanta questões de justiça e de responsabilidade.
Para já, o Hajj está a avançar para meses mais frescos, criando tempo para reforçar medidas de segurança e preparar o que vem a seguir.
O que aconteceu em 2024 demonstra que o calor extremo já é uma ameaça séria. O futuro do Hajj dependerá da forma como o mundo responder às alterações climáticas.
A investigação será apresentada na Assembleia Geral da EGU 2026 (EGU26), que decorre em maio de 2026.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário