Saltar para o conteúdo

Como o acordo UE–Mercosul pode mudar os alimentos nas mesas europeias

Cesto de compras com queijo, presunto, azeite, massas e outros alimentos numa loja gourmet.

Por trás das disputas políticas em torno do acordo UE–Mercosul existe uma questão muito concreta: que alimentos, afinal, podem mudar nas mesas europeias - e de que maneira? Da carne de vaca ao chocolate, do vinho ao mel, o tratado redesenha de forma discreta o que a Europa importa e o que exporta.

O que o acordo com o Mercosul abrange, na prática

O acordo Mercosul liga a União Europeia a um bloco sul-americano que inclui Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia. Em conjunto, as duas partes somam cerca de 780 milhões de consumidores e estão entre as maiores potências económicas mundiais em termos de PIB.

Depois de mais de duas décadas de negociações, no início de janeiro uma maioria de países da UE apoiou o acordo de comércio livre, apesar da oposição de França, Áustria, Irlanda, Polónia e Hungria. Prevê-se uma assinatura formal pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e por líderes do Mercosul no Paraguai.

O acordo elimina mais de 90% dos direitos aduaneiros entre as duas regiões, incluindo numa longa lista de produtos alimentares do dia a dia.

O entendimento não se limita à agricultura. Automóveis, têxteis, produtos químicos, produtos farmacêuticos e serviços também entram no pacote. Ainda assim, grande parte da tensão política nasce do que acaba nas prateleiras dos supermercados e nas cozinhas dos restaurantes.

Quem ganha: exportações europeias que podem disparar

Vinho, bebidas espirituosas e azeite em modo ofensivo

As indústrias alimentares europeias veem aqui uma oportunidade de chegar a dezenas de milhões de novos clientes na América do Sul, beneficiando de tarifas mais baixas e de uma proteção reforçada das marcas.

  • Produtores de vinho e de bebidas espirituosas em França, Itália, Espanha e Portugal
  • Produtores de azeite, sobretudo em Espanha e Itália
  • Exportadores de lacticínios, incluindo queijos e leite em pó
  • Fabricantes de chocolate em toda a UE

Com a descida das tarifas, estes setores antecipam um acesso mais barato aos mercados do Mercosul. Para adegas e destilarias, isso traduz-se em garrafas de Champagne, Chablis ou rum de Guadalupe a ganharem competitividade nas prateleiras sul-americanas.

Os vinhos, queijos e azeites europeus deverão chegar à América do Sul com tarifas mais baixas e com maior proteção legal dos seus nomes.

Nomes protegidos: o que AOP e IGP significam no dia a dia

O acordo traz uma lista extensa de indicações geográficas protegidas, conhecidas em francês como AOP (appellation d’origine protégée) e IGP (indication géographique protégée). Estes regimes asseguram que um produto provém efetivamente de um local específico e respeita regras de produção rigorosas.

Ao abrigo do tratado, dezenas de alimentos e bebidas europeus reconhecidos passam a ter proteção legal nos países do Mercosul, incluindo:

  • Queijos como Comté, Gruyère e Roquefort
  • Vinhos como Chablis e espumantes como Champagne
  • Bebidas espirituosas, incluindo rum de Guadalupe
  • Manteiga como Beurre Charentes-Poitou
  • Ostras de Marennes-Oléron
  • Ameixas secas de Agen
  • Arroz de Camargue
  • Carnes específicas, por exemplo carne de vaca de Charolles e presunto de Bayonne

Para o consumidor sul-americano, isto significa menos espaço para imitações do tipo “espumante ao estilo Champagne” ou “queijo azul tipo Roquefort”. Para os produtores europeus, consolida-se uma vantagem comercial construída em torno da herança, da origem e da reputação.

Quem se sente ameaçado: importações sul-americanas para a Europa

Do outro lado, muitos agricultores europeus receiam concorrência acrescida de produtores de grande escala no Brasil e na Argentina, onde os custos tendem a ser mais baixos e onde os sindicatos na UE criticam frequentemente os padrões ambientais e de bem-estar animal.

O acordo cria novos contingentes pautais (tariff-rate quotas): volumes fixos de certos produtos alimentares sul-americanos podem entrar na UE todos os anos com direitos reduzidos ou nulos. Acima desses limites, continuam a aplicar-se tarifas mais elevadas.

Principais contingentes agrícolas do Mercosul para a UE (por ano)

Produto Contingente anual
Carne de vaca 99,000 toneladas
Carne de aves 180,000 toneladas
Açúcar 180,000 toneladas
Arroz 60,000 toneladas
Mel 45,000 toneladas

A carne de vaca, a carne de aves, o açúcar, o arroz e o mel da América do Sul terão acesso mais fácil às prateleiras dos supermercados da UE através de novos contingentes.

Carne de vaca: o ponto de rutura político

O contingente de 99,000 toneladas de carne de vaca tornou-se o emblema da indignação de muitos agricultores, sobretudo em países como França e Irlanda, onde a produção de bovinos é central para a vida rural.

Os críticos afirmam que a carne sul-americana é muitas vezes produzida em explorações de enorme dimensão, com custos laborais mais baixos e regras menos exigentes sobre pesticidas ou desflorestação. Defendem que os produtores da UE, obrigados a cumprir padrões mais rigorosos em bem-estar animal e impacto ambiental, ficam em desvantagem em termos de custos.

Os defensores do acordo respondem que o contingente é relativamente reduzido quando comparado com o mercado total de carne de vaca na UE e sublinham que a carne importada continuará a ter de cumprir as regras europeias de segurança alimentar.

Frango, açúcar, arroz e mel: menos barulho, preocupações idênticas

A carne de aves é outro setor sensível. Mais 180,000 toneladas por ano de frango sul-americano aumentam a pressão num mercado onde as margens já são apertadas.

No açúcar, as importações alimentam receios entre produtores europeus de beterraba, especialmente em países como França e Alemanha. Em climas mais quentes, os produtores sul-americanos conseguem frequentemente produzir cana-de-açúcar a custos inferiores.

O arroz e o mel podem parecer produtos de menor peso na comparação, mas para regiões específicas - como os orizicultores da Camargue ou os apicultores da Europa de Leste - até um contingente de 60,000 toneladas de arroz ou 45,000 toneladas de mel pode mexer com preços e com a estabilidade do mercado.

Porque é que os agricultores franceses estão particularmente revoltados

Os sindicatos agrícolas franceses têm organizado protestos contra o acordo, alegando que o setor é chamado a manter padrões elevados de ambiente e bem-estar animal, ao mesmo tempo que enfrenta importações mais baratas produzidas sob regras diferentes.

Sondagens recentes sugerem que a opinião pública em França tende a acompanhar estas preocupações. Um inquérito citado pelos media franceses indicou que cerca de 70% dos inquiridos se opunham ao acordo comercial.

Para muitos agricultores franceses, o Mercosul chega no pior momento: custos em alta, stress climático e agora mais concorrência nos produtos-base.

Noutros países da UE, porém, o acordo é visto como uma oportunidade. Em economias mais orientadas para a exportação, como Alemanha, Espanha ou Países Baixos, há maior predisposição para apoiar um tratado que corta tarifas não só em alimentos, mas também em automóveis, maquinaria e produtos químicos.

Como isto pode aparecer nas compras da semana

É improvável que o consumidor comum veja uma revolução imediata no supermercado, mas, com o tempo, podem surgir alterações subtis.

  • Carne de vaca ou frango mais baratos do Brasil ou da Argentina em produtos processados ou nas arcas de congelados
  • Maior presença de açúcar sul-americano em confeitaria e refrigerantes
  • Mais visibilidade de arroz sul-americano em gamas económicas e marcas brancas
  • Maior oferta de misturas de mel importado a preços mais baixos
  • Queijos, vinhos e produtos europeus de especialidade a serem promovidos de forma mais agressiva na América do Sul

Para quem valoriza a origem e as práticas agrícolas, a leitura dos rótulos ganhará ainda mais importância. Indicações como “origem UE”, “não UE” ou o nome do país ajudam a perceber de onde vêm a carne e outros ingredientes.

Termos-chave e o que significam para a alimentação

Contingente pautal

Um contingente pautal permite importar uma certa quantidade de um produto com uma taxa de imposto mais baixa. Assim que esse limite é atingido, entram em vigor tarifas mais elevadas.

No caso do Mercosul, carne de vaca ou açúcar até ao contingente acordado chegam em condições mais favoráveis. Quantidades adicionais continuam, em teoria, a poder entrar, mas tornam-se menos competitivas devido aos direitos mais altos.

Nomes protegidos e produtos imitadores

As indicações geográficas protegidas são muitas vezes mal interpretadas. Não impedem ninguém, em qualquer parte do mundo, de produzir queijo ou vinho espumante - mas impedem o uso de determinados nomes associados a regiões específicas.

Com o novo acordo, “Roquefort” terá de vir efetivamente da zona de Roquefort-sur-Soulzon, em França. O mesmo raciocínio aplica-se a “Champagne” ou “presunto de Bayonne”. Os produtores do Mercosul podem continuar a fazer queijo azul ou espumante, mas têm de usar uma designação e uma marca diferentes.

Riscos futuros e possíveis benefícios

Uma dúvida em aberto é o grau de aplicação das cláusulas ambientais. Os críticos receiam que a desflorestação na Amazónia ou o uso de pesticidas na América do Sul aumentem se as exportações agrícolas crescerem. Por isso, pedem monitorização rigorosa e sanções claras quando as regras não forem cumpridas.

Em contrapartida, alguns economistas defendem que laços comerciais mais estreitos podem criar influência. A UE poderia usar o acesso ao seu grande mercado de consumidores para promover práticas mais verdes ou melhores condições laborais nos países parceiros, desde que os mecanismos de execução sejam robustos.

Para agricultores e empresas alimentares de ambos os lados do Atlântico, os próximos anos funcionarão como um teste em tempo real. Os produtores europeus de carne de vaca e de aves perderão quota de mercado, ou os produtos de gama alta, rotulados e biológicos conseguirão afirmar-se? E os consumidores vão privilegiar o preço, ou a origem e a sustentabilidade passarão a pesar mais nas escolhas?

As respostas não virão apenas dos textos jurídicos, mas de milhões de decisões pequenas - o que os supermercados colocam à venda, o que os restaurantes servem e o que, no fim, cada pessoa põe no cesto.


Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário