Mais de 80 anos depois de se ter afundado nas imediações da Gronelândia, o Terra Nova voltou a ser observado com uma nitidez surpreendente. Uma expedição conseguiu as primeiras imagens tridimensionais pormenorizadas do navio associado à derradeira viagem de Robert Falcon Scott - mas também confirmou que a sua estrutura de madeira está a degradar-se a grande velocidade.
Como o Terra Nova foi registado no fundo do mar?
A Expedição Era Heroica, conduzida pela Royal Canadian Geographical Society em parceria com a Woods Hole Oceanographic Institution, inspecionou o naufrágio em julho de 2026. A embarcação encontra-se a cerca de 300 metros de profundidade, aproximadamente 18 quilómetros a sul da Gronelândia.
Para o trabalho no local, a equipa recorreu ao submersível tripulado Alvin e ao veículo operado à distância Falcon, equipado com tecnologia de imagem da empresa canadiana Voyis. A partir de milhares de captações em alta resolução, foi possível reunir um modelo digital tridimensional do naufrágio.
O que as novas imagens revelaram?
O registo mostrou que o casco continua bem definido e, ao contrário de outros naufrágios da zona, não está coberto por redes de pesca. A proa, a hélice, o leme e o distintivo sistema com duas rodas de governo ainda são identificáveis, revelando detalhes inéditos da construção do navio.
Ainda assim, o estado de conservação é frágil. Os conveses colapsaram e praticamente desapareceram, enquanto o casco reforçado em madeira se abriu ao meio. Essa abertura deixa à vista zonas do interior, incluindo a casa das máquinas, a caldeira e partes dos antigos alojamentos da tripulação.
Por que motivo os cientistas criaram uma cópia digital?
A finalidade é criar um gémeo digital do Terra Nova antes que a água, os organismos marinhos e a passagem do tempo destruam o que resta. O modelo poderá ser analisado sem contacto com a estrutura, já muito delicada, e permitirá que os investigadores acompanhem mudanças futuras no naufrágio.
- Imagens de alta resolução documentaram toda a área visível.
- Sensores registaram a geometria tridimensional da embarcação.
- O modelo permitirá conservar pormenores mesmo após maior deterioração.
- Biólogos estudaram também os organismos presentes no local.
A missão inspecionou igualmente o Quest, o último navio de Ernest Shackleton, localizado em 2024 no mar do Labrador. Esta abordagem conjunta ajuda a comparar duas embarcações ligadas à chamada Era Heroica da Exploração Antártica e a perceber de que forma naufrágios de madeira evoluem e se transformam em habitats marinhos.
Veja o vídeo partilhado no YouTube pela BBC News que mostra em detalhe o navio Terra Nova naufragado.
Qual foi o papel do navio na história polar?
Construído em 1884 na Escócia, o Terra Nova foi concebido para operar em gelo e começou por ser usado na caça de focas. Mais tarde, integrou expedições britânicas e levou Robert Falcon Scott e a sua equipa na tentativa de chegar primeiro ao Polo Sul, entre 1910 e 1912.
Scott atingiu o polo em janeiro de 1912, semanas depois do norueguês Roald Amundsen. Ele e quatro companheiros morreram no regresso. Depois de resgatar sobreviventes da expedição, o Terra Nova regressou à atividade comercial e passou a operar sobretudo a partir de Terra Nova (Canadá).
O tempo está a esgotar-se para o Terra Nova
Durante a Segunda Guerra Mundial, o navio transportou abastecimentos para bases na Gronelândia. Em setembro de 1943, sofreu danos provocados pelo gelo e teve de ser abandonado. Após a retirada da tripulação, foi deliberadamente afundado para não constituir perigo para a navegação, sendo localizado novamente em 2012.
Agora, estas imagens tornam o naufrágio num arquivo acessível antes que o oceano apague os seus últimos vestígios. Preservar digitalmente o Terra Nova é urgente: cada elemento que se perde leva consigo informação sobre engenharia naval, exploração polar e pessoas que enfrentaram alguns dos ambientes mais extremos do planeta.
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